Pastor alemão em foco!

04/07/2017 - 10:24

Opinião de criador e treinador sobre a raça no Brasil
• PASTOR ALEMÃO - Cão: Wally von Haus Zipf - 20 meses (Vice-campeã Sieger Brasil 2016, campeã Ranking Sul Brasileiro

• PASTOR ALEMÃO - Cão: Wally von Haus Zipf - 20 meses (Vice-campeã Sieger Brasil 2016, campeã Ranking Sul Brasileiro

O Pastor Alemão é uma raça que fascina pet lovers no mundo todo. Os exemplares fazem guarda, resgatam pessoas, farejam drogas, ajudam cegos, em suma, auxiliam o ser humano nas mais diferentes funções. Considerado o cão mais versátil que existe, sua popularidade começou quando o personagem RinTinTin apareceu nas telonas na década de 1920. Aliás, muitos fãs da raça aprenderam a admirá-la por causa desse cão.

Na revista impressa deste mês, a edição 457, nossa capa dá dicas para quem tem ou quer um Pastor Alemão. A seguir, você confere conteúdo exclusivo: entrevista com José Carlos Silveira, juiz da raça, diretor de criação do Clube Brasileiro do Pastor Alemão (CBPA) e proprietário do canil Gita do Nepal, de Assis, SP, e Marcos Rangel, juiz de adestramento e trabalho, criador de Pastor Alemão de trabalho pelo canil Daxengel e proprietário do centro de treinamento de cães IPO Valley Dog Center.
 
Hoje observamos um rígido controle sobre a saúde articular dos animais. Essa já era uma preocupação dos criadores nas linhas de trabalho, onde encontramos animais fortes, rústicos e secos. Existe uma tendência, tanto nos machos como nas fêmeas de animais com estatura mais baixa e uma estrutura mais leve. O senhor não acha que o Pastor Alemão em linha de estrutura, perdeu em sua estampa, em sua exuberância e função?
José Carlos Silveira: Primeiramente, não gosto de classificar linha de trabalho e estrutura. O Pastor Alemão é um cão de trabalho, para isso foi criado e há mais de 100 anos aprimorado para adquirir avanços sempre nessa direção da versatilidade, pastoreio, busca, salvamento, polícia, guarda patrimonial e outras utilidades. Não vejo como premiar nas exposições cães menores cujo padrão de altura ou constituição física é menor, mesmo porque a avaliação em uma exposição de estrutura, no seu final, é com o animal em movimento e se este tiver tamanho menor, cernelha mal posicionada, uma constituição de massa muscular deficiente, não fará um trote fluente com cobertura de solo desejável, passadas rentosas propulsão adequada e a devida transmissão para o trem anterior e etc. Nunca devemos esquecer que o Pastor Alemão é um cão de trabalho e com suas angulações, altura e conformação correta, desempenhará o trote sem se cansar e é isso que avaliamos numa expo de estrutura. Quanto ao controle das articulações, devemos sempre observar os HDZs (método estatístico do Schaeferhunde Verein, clube mundial do Pastor Alemão, da Alemanha) dos reprodutores, para melhor programação da criação.
 
Na imprensa especializada, se dá enorme importância aos machos reprodutores e sua genética na criação. Não precisamos dar maior importância e melhorar o nosso plantel de fêmeas?
José Carlos Silveira: Sim, isso se deve a um consenso no número de acasalamentos na seleção, que um macho executa no ano, por exemplo 60 e as fêmeas apenas duas ninhadas, portanto o poder de disseminar qualidades e defeitos são extremamente maiores, mas comprovadamente o poder genético é de 50% cada. Ao meu ver, uma criação só será bem-sucedida se tivermos matrizes corretas e machos testados em grupo de progênie, sempre com a devida combinação fenótipo e genótipo.
 
Acompanhando as exposições, observamos uma diferença grande entre os “handlers” e suas apresentações.
Não seria importante uma atualização na formação dos expositores e respectivos “handlers”?
José Carlos Silveira: Sim, fomos duramente criticados na SIEGER 2015 pela mestra de criação Margite Van Dorsen, titular do Canil Von Arllet, neste quesito. Temos que aperfeiçoar o formato de treinamento, principalmente na proteção e defesa e também nos métodos de treinamentos e apresentação, mas temos excelentes profissionais nessa área, mas como são particularidades não institucionais e fazem parte de uma evolução individual, o bom profissional se capacita e faz seu diferencial para conquistar o cliente.                            
 
Notamos um interesse, muitas vezes polarizado, inclusive com a formação de núcleos que se organizam para a divulgação da raça. Interior de São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Nos demais Estados, a maioria se concentra nas capitais. Os criadores se protegeram dos demais que criam as chamadas “raças da moda”, tais como Labrador, Golden Retriever, Rotweiller, etc.? Esse ponto ajudou ou prejudicou na evolução da criação dentro do território nacional?
José Carlos Silveira: A constituição de núcleos não é de agora. O SPCPA Núcleo de Assis completou em 2014, 50 anos. Houve sim uma expansão com a vinda do Clube Brasileiro do Pastor Alemão (CBPA), no qual tivemos o cuidado de expandir a constituição de comissões de criadores, com regulamento que exige o mínimo de três criadores-sócios e isso deu condições de a fomentação ter certo avanço, mas ainda temos muito a lapidar nessas organizações que sempre precisam de suporte técnico do quadro de juízes.
 
Sabemos que quem opta pela criação de Pastor Alemão na linha de trabalho, persegue temperamento e habilidades que o animal pode apresentar. Então desempenho, saúde e morfologia, aliados ao correto treinamento, são critérios a serem seguido. Qual é a sua opinião da importância que os atuais criadores têm sobre essas questões? O Brasil ainda está atrasado no conhecimento sobre a abordagem desses conceitos?
Marcos Rangel: Quando falamos em criação de Pastor Alemão, linha de trabalho, queremos falar de padreadores e matrizes selecionados em provas de trabalho, com títulos de trabalho. Criadores de Pastor Alemão de trabalho devem selecionar seus exemplares em provas de trabalho, para somente depois utilizá-los na reprodução. De preferência, sendo o próprio criador o treinador de seus cães, colocando a mão na massa no treinamento e na formação de seus exemplares, o que faz com que o criador adquira conhecimento acerca das diferentes características do temperamento de um cão, conseguindo aí sim diferenciar um exemplar com temperamento que deva ser usado na reprodução de todos os outros que não devem. Um criador sem conhecimento adequado não melhora a raça, muito pelo contrário. Já um criador consciente do que está fazendo é tudo o que a raça precisa para evoluir mais e mais. As provas de trabalho selecionam impulsos e comportamentos necessários aos cães de trabalho, e somente nelas e com o treinamento rotineiro é possível a obtenção de conhecimento para leitura do comportamento de um cão. No caso do Pastor Alemão, a prova de trabalho eleita como seleção da raça no mundo inteiro é o IPO. Tudo isso sem esquecer a saúde: exames de saúde (displasia coxofemoral e de cotovelos, por exemplo, sempre devem vir em primeiro lugar).
 
O Brasil ainda está atrasado no conhecimento sobre a abordagem desses conceitos?
Marcos Rangel: Sim, o Brasil está bastante atrasado. Aqui, muitos dos criadores que se dizem criadores de Pastor de trabalho não selecionam seus padreadores e matrizes, apenas compram cães, filhos de cães titulados e os acasalam sem os critérios ditos anteriormente, ou seja, sem serem selecionados em provas de trabalho. Quando falo em seleção, não me refiro à seleção exigida pelos clubes brasileiros, e sim à seleção realizada por meio do IPO. A maioria dos criadores e aficionados não consegue distinguir as características mais básicas dentro do comportamento de um cão, como dureza, sensibilidade, segurança, insegurança, dominância, submissão, ou o tipo e quantidade dos impulsos básicos como caça, defesa e agressão. Isso ocorre em razão de muitos criadores não serem treinadores, não adquirindo, assim, o conhecimento necessário para uma correta criação.
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