ANTES E DURANTE... FATOS DA REPRODUÇÃO CANINA


Aproveite para passar em revista diversos conhecimentos sobre reprodução que podem ajudá-lo a tomar boas decisões relacionadas ao acasalamento (ou não) de cães

PERÍODO PRÉ-NUPCIAL


  • A cadela dá banheira. Quando a época de acasalar se aproxima, o comportamento da cadela muda. Ela explora mais o ambiente, procura menos por alimentos, fica ligada em odores de macho e, se houver um por perto, passa a maior parte do tempo próxima a ele chamando a atenção (urina mais e ergue a cauda, mostrando a região da vulva, por exemplo). Até o macho tímido é induzido à corte com esse assédio. A palavra estro (cio) vem do grego oistros, que significa desejo louco.


  • Vermelho: a cor do cio. No período que antecede o acasalamento, aparece vermelhidão e inchaço na vulva e um líquido avermelhado surge da vagina. Nessa fase, chamada de pró-estro, que dura geralmente de 7 a 10 dias, a fêmea se recusa a acasalar, podendo até ser agressiva com o macho.


Calcinha higiênica Na cadela o sangramento indica o período fértil. Você pode vesti-la com uma calcinha higiênica forrada com absorvente higiênico, à venda nas lojas especializadas, para evitar sujar a casa. Existem vários tamanhos. Mas fique atento: tire a calcinha dela na hora em que ela for fazer xixi.


  • Fila no portão: ferormônios chamam machos a quilômetros de distância. Cheirinhos exalados pela vagina e pela urina da cadela, a partir de até 10 dias antes de ela entrar no dia fértil e que persistem até o cio, são sentidos por cães a grande distância, apesar de as pessoas não os perceberem. Existem relatos de cães encontrados na casa de uma cadela no cio, há mais de oito quilômetros do local onde moravam. O macho atingido parece encantado: distrai-se no momento de guardar a casa ou se comporta indevidamente numa exposição, por exemplo. Se precisar, transpõe cercas ou arrebenta portões. Pode fugir de casa para chegar à fêmea.


NÚPCIAS


  • Chega o dia. A cadela está pronta para ser coberta entre o 90 e o 140 dia do cio e, se isso acontecer, ela poderá iniciar uma gestação. O certo é fazer acasalamentos a cada 48 horas, nesses seis dias, para garantira fertilização. É a fase chamada estro, na qual a fêmea urina com maior freqüência, lambe mais a vulva, que se apresenta inchada, e sangra menos, produzindo um corrimento mais escuro e líquido, ou nem sangra (desde o início do cio até o nono dia, o sangramento vai diminuindo).


  • Teste caseiro. Acaricie a base da cauda da cadela: se ela a puser de lado e expuser a vulva, além de apresentar os demais sinais da proximidade do estro (ver item anterior), a probabilidade de aceitar o macho e de estar no estro é grande. Mas nem todas as cadelas prontas para engravidar levantam a cauda.


  • Testes de laboratório. Exames como citologia vaginal, vaginoscopia e dosagem hormonal, realizados por veterinários especializados em reprodução, indicam qual é o dia do cio com maior chance de a cadela engravidar.


  • Ejaculação. A penetração começa com a monta, quando, por meio de algumas investidas, o pênis é introduzido na vulva da cadela. Já dentro da cadela, o pênis forma uma espécie de nó com um aumento de volume que não o deixa se desgrudar da fêmea. Depois de aproximadamente um minuto de acasalamento, o cão desmonta, mas o pênis cheio de sangue continua preso. É o que se chama de engate, que pode durar de 10 a 40 minutos. A ejaculação principia 15 a 30 segundos após a penetração e se mantém enquanto o cão estiver grudado à fêmea. No entanto, a emissão mais rica em espermatozóides ocorre geralmente nos dois primeiro minutos da cópula. Percebe-se, em alguns cães, a ejaculação pelos movimentos dos membros traseiros do macho, parecidos com um sapateado.


  • Não desengatar! O casal fica preso aguardando tranqüilo o final do engate. Não é aconselhável tentar separar os dois. Poderá haver fratura do osso interno que os cães têm no pênis. O cão estará ainda ejaculando e há risco de ele morder quem se aproxime.


  • Particularidades femininas.


    • No primeiro cio, geralmente a fêmea se mostra mais tímida em relação aos machos. No entanto, somente 10% das cadelas evitam ativamente os machos ou os atacam.


      • A taxa de rejeição de machos por parte das cadelas no cio varia de 25 a 80%. A maioria das cadelas mais velhas exibe uma certa preferência por determinados machos.


      • Geralmente, quando uma cadela é abordada pela primeira vez, permanece quieta enquanto o macho a cheira e se agacha para tentar montá-la.


      • O macho escolhido costuma ser um cão conhecido da fêmea, que vive perto dela.


      • Uma cadela dominadora pode não deixar que um macho subordinado a monte. A presença de cadelas dominadoras pode até inibir a cópula de um casal de cães subordinados.


  • Particularidades masculinas.


      • Pode demorar até 29 horas para que alguns machos decidam montar a fêmea ou desistam dela, sem mostrar interesse.


      • O macho experiente inicia a cópula por trás em 97% das vezes, enquanto o inexperiente só começa por trás em 39% das vezes. Ele tenta pelo lado, pela frente, até achar o lugar certo.


      • Machos sem experiência, criados longe de outros cães, têm mais dificuldade para a penetração, com sucesso em apenas 24% dos coitos. Os mais experientes chegam a um sucesso de 50 a 60%.


      • Somente um entre 15 machos consegue fazer o engate com sucesso durante o primeiro ano de vida. Há casos de exemplares com menos de um ano que depois de 39 tentativas não obtiveram sucesso.


      • Machos adultos são geralmente capazes de se acasalar por até cinco vezes ao dia. No entanto, se a relação sexual ocorrer mais de uma ou duas vezes por dia, a quantidade de espermatozóides tende a diminuir nas ejaculações seguintes. O ideal é um intervalo de 48 horas entre um ato sexual e outro.


ESTRATÉGIAS


  • Freqüência ideal de partos. Em geral, o cio se repete a intervalos de 4 a 12 meses, dependendo de características individuais e de raça, além de outros fatores, como a alimentação e o nível de estresse. Depois do primeiro parto, o ideal é que a fêmea não tenha mais de uma ninhada por ano, caso contrário haverá uma tendência a ninhadas menores, filhotes mais fracos e fraqueza da fêmea.


  • Com que idade já pode? Para machos e fêmeas, a puberdade vem entre os 6 e os 14 meses. As raças mais precoces são as menores, como o Pinscher e o Schnauzer, a partir dos seis meses. Nas maiores, a demora aumenta. Mas uma cadela só deve ser acasalada quando estiver com o físico pronto para uma gestação saudável. Em geral, com cerca de dois a três anos e meio de idade. Nessa faixa etária, uma cadela consegue desmamar a maioria da ninhada (média 4,28 filhotes) com menor índice de mortalidade (18,5%).


  • Quando pendurar as chuteiras? Os cios podem ocorrer por toda a vida. Há relatos de uma cadela que engravidou com 17 anos. Quanto aos machos, não há idade máxima para se acasalar. No entanto, vale lembrar que a partir dos seis ou sete anos de idade o sêmen pode perder qualidade, ou seja, gerar filhotes em menor número e que nascem mortos ou muito fracos. Nas cadelas com mais de sete anos, a mortalidade dos filhotes pode chegar a 40% da ninhada. Com mais de nove anos, a mortalidade chega a 80%. Para se obter melhor resultado, costuma-se acasalar as cadelas até os seis a oito anos de idade e os machos até os oito. No entanto, existem machos mais velhos que produzem ótimas ninhadas. Quando houver dúvida, pode ser avaliada a qualidade do sêmen por meio de espermograma realizado em laboratório veterinário.


  • Cios sincronizados?


Alguns relatos sugerem que existe uma espécie de sincronização do ciclo em cadelas que vivem juntas, vindo então a entrar no cio no mesmo período.


  • Como evitar acasalamentos indesejados. Anticoncepcionais são o último recurso: podem causar efeitos colaterais como tumor de mama e supressão total dos cios seguintes. O mais seguro é manter a fêmea longe do macho no período do cio. Estão à venda produtos com a promessa atraente de inibir o cheiro produzido pela fêmea no cio, mas, segundo a médica-veterinária especializada em reprodução animal Silvia Crusco, eles não funcionam.


  • Interrupção de gestação indesejada. Para interromper a gestação nos primeiros dias, existem medicamentos que podem ser receitados por veterinários.


  • Castração. É a melhor escolha para quem não deseja acasalar o cão. O indicado é retirar da fêmea os ovários e o útero e do macho os testículos e o epidídimo. O escroto permanece, mas fica menor por não abrigar mais os testículos. Quanto mais precoce a castração (pode ser feita a partir das oito semanas de idade), menos provável é o cão desenvolver instinto sexual e, portanto, ter comportamentos como marcar território, urinar quando excitado e se tornar agressivo. Problemas de saúde, também são evitados, como doenças sexualmente transmissíveis e câncer na região genital causado pela presença dos hormônios sexuais. O cão castrado depois da maturidade sexual (dos sete meses em diante) poderá apresentar comportamento de macho não castrado, como procurar por fêmeas no cio. Para os machos há ainda a possibilidade da vasectomia, que preserva todas as características de comportamento reprodutivo sem permitir a geração de descendentes. Alguns cães, depois da castração, tendem a engordar, o que pode ser evitado com a reavaliação do alimento oferecido. A castração contribui para evitara superpopulação canina e o conseqüente abandono.


  • Inseminação artificial. Essa é a melhor opção quando o macho não aceita a fêmea ou vice-versa; se o macho tiver doença não genética que o faça sentir dor na hora do acasalamento, como um mal de coluna; se o cão for agressivo na cópula ou o casal estiver fisicamente distante e ficar mais fácil enviar o sêmen do que a fêmea. As inseminações mais comuns são as feitas com depósito de sêmen na vagina (inseminação vaginal) e com depósito no útero (inseminação intra-uterina). Na primeira, o sêmen pode ser aplicado puro, diluído ou resfriado, sem cirurgia, enquanto na segunda é sempre congelado e há necessidade de anestesia e cirurgia.


  • De olho no genital. Secreção no pênis de aspecto purulento e diferente da lubrificação típica do cão excitado indica infecção. Pode ser branca quando causada por fungo ou protozoário; esverdeada ou amarela se for de origem bacteriana e sanguinolenta se houver traumatismo grave ou mesmo tumor. No caso da fêmea, podem-se notar secreções diferentes da lubrificação normal da vulva. Qualquer dúvida, procure um médico-veterinário.


  • Não acasalar cão com os seguintes males:


    • Brucelose. O cão afetado, mesmo tratado e sem sintomas, transmite o mal por toda a vida, por via sexual e pela urina. A fêmea aborta entre 45 e 50 dias de gestação e fica infértil. O macho fica com inflamação nos testículos e na bexiga, com infertilidade, dermatite escrotal e há quem associe o mal a bico-de-papagaio (doença nas vértebras). A causadora é a bactéria Brucella canis, que se aloja no órgão genital do macho e da fêmea. Ela é detectável por exame de sangue, que, se for feito no inicio do cio e der positivo, precisará de um exame de sangue complementar para confirmação (o laboratório Cepav faz ambos: www.cepav.com.br). A brucelose passa para o homem. E imprescindível usar luvas quando houver contato com sangue, placenta, urina e sêmen de cão portador da doença.


      • Herpesvirose canina. Transmitida sexualmente, faz os filhotes nascerem enfraquecidos ou a fêmea abortar e ficar infértil. Não há exame no Brasil. Por causa da semelhança dos sintomas, faz-se exame de brucelose e, se o resultado for negativo, suspeita-se de herpesvirose canina. O herpes-vírus canino não passa para o homem.


      • Tumores em órgão do aparelho reprodutor. Recomenda-se evitar o acasalamento de um cão que teve tumor, principalmente se houver casos do mal em parentes próximos, indicando possível propensão genética. No testículo, o tumor é detectável por palpação desde o início. Nos ovários, ele causa falta de cio, cio prolongado, infertilidade, sangramento pela vagina e aumento do volume do abdômen. Confirmada a presença, o melhor é retirar o tumor ou, em alguns casos, fazer quimioterapia. Anticoncepcionais aumentam a probabilidade de desenvolver tumores.


      • Tumor de Sticker. É um tumor venéreo transmissível. Suspeita-se que seja causado por um vírus e passado pelo ato sexual. Ataca principalmente os órgãos genitais e, em alguns casos, a região óssea do nariz ou a pele, deixando o tecido com a forma de uma couve-flor. O tratamento com quimioterapia costuma dar bom resultado.


      • Males genéticos. Hoje são conhecidas cerca de 400 doenças genéticas em cães. Não se deve acasalar exemplares que possuam alguma delas, pois fatalmente aparecerá nos descendentes. Um exemplo é o do criptorquidismo (testículo não desceu até o escroto), que pode ser unilateral (um não desceu) ou bilateral (os dois não desceram). A descida dos testículos deve acontecer até os quatro a cinco meses de idade. Outro mal genético bastante conhecido é a displasia coxofemoral (mau encaixe da cabeça do fêmur na bacia ou acetábulo), que pode causar fortes dores, manqueira e até impossibilidade total de locomoção. Manifesta-se principalmente em cães de grande porte e é facilmente detectada por raios X a partir dos 12 meses ou, em cães de grande porte, depois dos 18 meses. A atrofia progressiva da retina (PRA), perda gradual da visão que pode levar a cão à cegueira, atinge cães de mais de 50% das raças e pode ser diagnosticada por exame dos olhos no filhote. Já a síndrome de Von Willebrand (hemofilia) torna deficiente a coagulação e é detectável por teste de DNA a partir do primeiro dia de vida do cão.


CÃO

sistema reprodutivo


  • Testículos produzem espermatozóide e o hormônio testosterona, que dá as características masculinas
  • Epidídimos neles os espermatozóides são armazenados e amadurecem
  • Escroto protege os testículos e os epidídimos
  • Próstata produz a maior parte líquido seminal
  • Pênis leva os espermatozóides até o sistema reprodutivo da fêmea durante o acasalamento. No cão o pênis tem um pequeno osso interno que facilita a penetração
  • Prepúcio dobra de pele que protege todo o pênis



CADELA

sistema reprodutivo


  • Vulva parte visível do aparelho reprodutor da cadela. Protege a vagina
  • Vagina é o canal que recebe os espermatozóides no acasalamento e por onde passam os filhotes durante o parto
  • Tubas uterinas nelas ocorre a fertilização e permanece os embriões por até nove dias antes de descerem ao útero
  • Útero abriga os embriões vindo das tubas até completarem o desenvolvimento
  • Ovários produzem os óvulos e os hormônios femininos progesterona e estrogênio


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Ver Figura 281p33n1b.jpg