Terra Nova, gigantismo bonachão e atuante

Categoria: Terra Nova

Autor(a): Fabio Bense | Colaborador(es): Jornalismo Top.Co. | Cidade: Campinas | 04/07/2017 - 16:37

Por seu grande porte, robustez e força, há quem compare o Terra Nova a um urso. Mas, ao contrário do mamífero selvagem, ele é desprovido de agressividade e se destaca na prestação de diversos serviços
Preto: a mais tradicional das três cores do Terra Nova | Arquivo Hanningfield

Preto: a mais tradicional das três cores do Terra Nova | Arquivo Hanningfield

No final de 2011, o empresário apaixonado por cães Rafael Brazão, de São Paulo, dono de três Shih Tzus, um Golden e um Labrador, quis dar um cão à noiva, Daniele, também empresária. Eles moram juntos e, ao pesquisar na internet, o casal se deparou com o Terra Nova. “De imediato, nos apaixonamos pela beleza e exuberância da raça”, recorda Daniele. Aprofundando a pesquisa, veio a constatação de que, apesar do grande porte, o cão se destacava pela delicadeza, docilidade e apego. Decidiram pela raça e Daniele ganhou Alice, na época com 4 meses, e a mãe de Alice, Cherry, com 2 anos e meio.

Sem agressividade

“Foi ótimo ver que as duas Terra Novas se deram bem desde o primeiro momento com meus outros cães e com os gatos que vagueiam por aqui”, conta Brazão. A índole dócil do Terra Nova é elogiada também por Silvia Rodrigues, de Atibaia, SP, que se dedica à criação da raça há sete anos pelo canil Recanto Alto. “Já vi o meu Chihuahua, que se sente o dono do pedaço, ficar pendurado na orelha da Terra Nova que mantenho dentro de casa”, diverte-se. “Aliás, a Terra Nova é frequentemente mordida nas orelhas pelo Chihuahua e sua única reação é se afastar.” 

Essa sociabilidade é apenas um dos pontos fortes da raça, confirmado por um estudo dos comportamentalistas norte-americanos Benjamin e Lynette Hart, publicado em 1988 no livro The Perfect Puppy, que coloca o Terra Nova como o cão mais sociável com outros cães entre 54 raças avaliadas.

Na verdade, a sociabilidade da raça não tem limites. “As visitas ficam fascinadas com a meiguice das minhas grandalhonas”, diz Brazão, que nunca viu as Terra Novas dele darem alarme quando estranhos se aproximam. “Só as vi latir para fogos de artifício ou em resposta aos latidos de outros cães”, diz ele. De fato, o estudo dos Hart coloca o instinto de defesa territorial do Terra Nova entre os mais baixos. E cita, ainda, a raça como a mais tolerante com crianças, entre as 54 analisadas. 

Esse item, por sinal, foi decisivo para o marido da universitária Suellen Nóbrega, de Guarulhos, SP, pai de Leonardo, de 8 anos, e de João Gabriel, de 2 meses, presentear a esposa com a Terra Nova Nalu, em 2012. E a família, depois de conviver por cerca de 18 meses com Nalu, ficou tão encantada com as qualidades da raça que agora tem três Terra Novas: um macho e duas fêmeas. “Nalu era sempre carinhosa, companheira, louca por crianças e nadava muito bem no mar, tudo a ver conosco, pois tanto eu quanto meu marido e nosso filho praticamos surfe”, explica Suellen. 

Quanto às crianças, Suellen dá alguns exemplos da tolerância da raça. “Os Terra Novas nem se movem se o Leonardo se deita em cima deles quando está jogando videogame”, relata. “São cães que, apesar de amarem brincar de cabo de guerra, quando estão com criança apenas seguram a corda ou o brinquedo, sem medir força.” Daniele dá outros exemplos da delicadeza do Terra Nova. “As minhas andam pela casa sem bater ou esbarrar nas coisas e, mesmo quando brincam conosco ou se aproximam de nós, estão sempre calmas.”

Adestrabilidade

A obediência do Terra Nova está acima da média, como indica a 34ª colocação entre 132 raças do ranking de adestrabilidade elaborado pelo comportamentalista Stanley Coren, em seu livro A Inteligência dos Cães. Brazão comenta que, em geral, Alice e Cherry obedecem bem aos pedidos para entrar em casa, sair da cozinha e descer do sofá. E acrescenta: “Também aprenderam logo a caminhar ao nosso lado, atendendo ao ‘junto’ – bastou mudar de direção algumas vezes quando puxavam a guia.”

Companhia

Como companheiras, Alice e Cherry estão sempre por perto. “Por vezes, adormecem sobre os nossos pés e quando chegamos em casa, independentemente se a ausência foi de apenas 10 minutos ou o dia todo, a recepção é sempre feita com lambidas e muito alegria”, conta Daniele.


Arquivo de Tânia Pioli / Criador do cão: canil Recanto Alto | Arthur, com quase 1 ano: indispensável para Tânia

Ajudando gente

Com sua sociabilidade e delicadeza, em conjunto com o impacto causado pelo gigantismo e aparência bonachona, o Terra Nova faz sucesso como cão de terapia assistida. Suellen, que atua nessa área, relata: “Os meus Terra Novas visitam crianças portadoras de deficiência e se mantêm tranquilos ao serem abraçados e acariciados, assim como não reagem quando alguém enfia a mão na boca deles ou dá puxões de orelha.”

Outra função que o Terra Nova desempenha bem é a de assistente de mobilidade, conforme testemunha a cadeirante Tânia Pioli, de Ourinhos, SP, que, por ter uma doença degenerativa, perdeu a firmeza nas pernas. Ela mora com o marido numa chácara com instalações adaptadas, tendo a companhia do Terra Nova Arthur, de 10 meses, que se mantém sempre perto dela, enquanto o marido está trabalhando. “Quando a rodinha da cadeira vira de lado e emperra, há risco de queda e me seguro no Arthur que, com uma força impressionante, puxa para frente e faz a rodinha endireitar”, exemplifica Tânia. “Costumo me apoiar no Arthur para ir da cama para a cadeira e vice-versa e ele aguenta o meu peso como se nada fosse.”

Mesmo com a imobilidade das pernas, Tânia faz questão de praticar natação na piscina da chácara. Mas, por ser também diabética, corre o risco de perder os sentidos a qualquer momento em decorrência de crises de hipoglicemia. Por isso, treinou Arthur a pular na piscina sob comando e a levá-la até o degrau de saída. “Se estou na piscina, ele fica rondando e quando o chamo, entra e permanece na água enquanto não saio”, conta ela, que já precisou ser socorrida uma vez, com sucesso, ao sentir que ia desmaiar. “Já tive cerca de 20 cães e não consigo imaginar uma raça que desempenhe tão bem a função de assistente”, comenta Tânia.

 

Bom nadador

O Terra Nova se formou na ilha de mesmo nome, pertencente ao Canadá, cercada pelas águas do Atlântico e com numerosos lagos, onde, a partir de cães trazidos por navegadores vikings há muitos séculos, desenvolveu aptidões para a natação. Seu peito largo e profundo, com costelas em forma de barril, abriga um pulmão poderoso que, quando cheio, garante a flutuação. As patas grandes e abertas, dotadas de membranas entre os dedos, agem como pés-de-pato aumentando a propulsão na água e evitando o afundamento nas margens umedecidas dos lagos e nas áreas macias das praias. A pele, coberta por boa dose de oleosidade e pelagem dupla com subpelo lanoso e impermeável, protege o organismo das águas geladas daquela região atingida pelo frio polar.

Características como essas, aliadas ao temperamento sociável, colaborativo e de boa adestrabilidade, dão ao Terra Nova potencial para ser um auxiliar aquático no resgate de objetos e pessoas caídas na água.

Na Itália, a Scuola Italiana Cani Salvataggio (Escola Italiana de Cães de Salvamento) se dedica há 25 anos a preparar cães para resgate aquático. “O Terra Nova é a melhor raça para essa atividade, seguida pelo Labrador e o Golden Retriever”, informa Ferrucio Pilenga, presidente da escola, cujo logotipo mostra um Terra Nova saltando para mergulhar. 

Atuando em dupla com um salva-vidas, o cão de salvamento ajuda a rebocar o banhista em dificuldade até a terra firme. Para tanto, o animal é vestido com um colete especial que permite à pessoa se agarrar facilmente ou leva consigo uma bóia para ser usada pela vítima, atrelada a uma corda por meio da qual o cão a puxa. Enquanto isso, o salva-vidas pode se concentrar em ajudar a manter a pessoa nas melhores condições possíveis enquanto é transportada para fora da água.

 

Aspectos a considerar

Mesmo com tantas virtudes, o Terra Nova é um cão para poucos. Apesar de sua criação ter mais que duplicado nos últimos dez anos no Brasil, a quantidade de filhotes gerados é relativamente pequena. Em 2012, ano com dados estatísticos mais recentes da Confederação Brasileira de Cinofilia (CBKC), houve 76 registros, o que colocou o Terra Nova na 77ª posição em popularidade entre 153 raças. Dez anos antes, os registros eram apenas 32, correspondentes à 86ª posição.

A procura por esse cão se mantém restrita principalmente pelas dificuldades que decorrem do gigantismo. Com média de 71 cm de altura (macho adulto) ou 66 cm (fêmea adulta), o Terra Nova pesa aproximadamente 70% a mais que o Labrador, embora seja apenas cerca de 25% mais alto. O motivo de tanta diferença no peso é o poderio da ossatura e musculatura (pelo padrão CBKC, o macho adulto pesa em torno de 68 kg e a fêmea, de 54 kg, mas na prática há machos pesando cerca de 80 kg e fêmeas ao redor de 65 kg).

Uma das consequências de todo esse físico é o alto custo de manutenção. Desde filhote, o Terra Nova come muito, pois cresce tão rapidamente que, aos 6 meses, quem não conhece a raça pode pensar que está diante de um cão adulto. “Até os 18 meses, o desenvolvimento ocorre mais na altura e depois passa a acontecer o ganho de massa muscular, que se prolonga até os 4 anos”, diz Antonio Carlos de Almeida Junior, que cria Terra Nova pelo canil Riesigen Acht, de São Paulo.

Um Terra Nova adulto plenamente formado come de 700 g a 1,2 kg de ração por dia (a variação é grande em virtude da diferença de peso entre machos e fêmeas). Caso fique doente, o custo do tratamento pode ficar alto, pois a quantidade necessária de remédios é proporcional ao peso do cão. Até no banho e tosa os cães gigantes estão sujeitos ao preço mais salgado das tabelas dos esteticistas.

O gigantismo contribui, ainda, para a menor expectativa de vida em comparação com cães menores, estimada em 10 anos, em média, para o Terra Nova.

Cães com lábios pendentes como o Terra Nova babam mais que outras raças. Para evitar respingos é recomendável que o cão use babador ou que as pessoas tenham à disposição um pano para secar a boca e o peito do animal. “As minhas fêmeas usam babador e, quando estão sem ele, ficamos com uma toalhinha para limpá-la”, relata Brazão. “Às vezes, uma ou outra baba escapa, mas nossos amigos visitantes sabem e estão acostumados com isso”, comenta ele.

A pelagem dupla e abundante da raça está sujeita a muita perda de pelo. Para evitar que os pelos mortos se espalhem pela casa e para prevenir a formação de nós, convém que a escovação seja feita de duas a três vezes por semana. Quanto a banhos, não é recomendado dar mais de um por mês, para preservar a camada de gordura que protege a pele naturalmente.