Treino contra o apego excessivo

Categoria: Comportamento

Autor(a): ANDRÉ BARRETO | Colaborador(es): Jornalismo Top.CO | Cidade: Campinas/SP | 05/12/2017 - 09:01

Seu cão é superdependente? Saiba como conseguir deixá-lo separado de você sem que ele fique ansioso demais
©iStock.com/cynoclub

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Se você perde oportunidades para viajar ou deixa de aceitar convites para passear, estudar, trabalhar e namorar por causa do seu cão, pare e reflita. Se, por um lado, cuidar bem dos animais de estimação faz parte dos deveres de quem os adquire, por outro, ser dono responsável não deveria significar abrir mão da qualidade de vida. É importante que, além de dar atenção ao cão, você realize seus programas pessoais. Já pensou como seria a vida se as crianças chorassem toda vez que os pais saíssem de casa? Ou se não fizessem absolutamente nada, nem mesmo comessem, só porque os pais estão fora, e quando eles retornassem, festejassem com excitação exagerada?

A boa notícia é que você pode ter mais vida própria tornando o seu cão mais independente. Para tanto, mostramos como fazer isso neste artigo, o último da série sobre erros comuns na educação canina.

 

Postura adequada

Muitas pessoas transformam o cão em superdependente, até mesmo quando é de raça independente por natureza, por atrelarem todas as atividades do animal à presença delas. Não seja protetor em excesso. É preciso agir com o cão de casa como convém fazer ao preparar os filhos para a vida: ensinar a lidar com o mundo e com os compromissos. Normalmente, quem protege demais os animais, faz o mesmo com pessoas e com os próprios filhos, ajudando em tudo, mesmo na vida adulta. Portanto, se você for exageradamente protetor, aproveite esta oportunidade para tentar se corrigir enquanto treina o seu cão.

 

Evitar dependência

Existem situações que estimulam a dependência canina. Veja como agir em cada uma delas:

Ao chegar em casa – não faça festa para o cão. Simplesmente entre calmo e só lhe dê atenção quando ele estiver tranquilo. 

Nas refeições – ajudar o cão a se alimentar ou implorar que ele coma é um erro bastante comum, que tende a acostumar o animal a só comer na presença do dono. Há casos de cães que, por aguardarem a volta do dono para alimentá-los, ficam dias sem comer. Não corra esse risco. Ao servir as refeições, se o seu cão não começar a comer em um tempo razoável (de 15 a 30 minutos, por exemplo) e se não houver motivo de exceção veterinária, recolha o potinho e, na próxima refeição, volte a oferecê-lo de novo.

Chamados – chamar o cão o tempo todo não é uma boa ideia. Se ele se afastou espontaneamente, não o chame. Deixe-o onde estiver. Quando ele quiser, procurará você. Reserve os chamados para situações especiais.

Lugar de dormir – se o cão dorme com você regularmente, faça-o dormir sozinho pelo menos duas vezes por semana. Afinal, haverá situações em que ele não poderá ficar com você na cama, por motivos como viagem ou questão conjugal.

Manejo – caso o cão só aceite passear com você ou só permita ser tratado por você, não deixará ninguém mais cuidar dele na sua ausência. Acostume-o ao convívio com pessoas e a confiar nelas. Por exemplo, durante os passeios, leve alguns petiscos e peça para desconhecidos os entregarem para ele. Ao receber visitas, solicite que estimulem o cão a interagir com elas (para tanto, abasteça-as com alguns petiscos). Deixe que ele interaja com as pessoas de forma positiva, brincando, comendo petiscos e recebendo carinho delas.

 

Ensinar independência

É possível treinar o cão a permanecer sozinho enquanto você está em casa. Basta, nessas ocasiões, intercalar períodos junto com o cão com outros nos quais ele esteja separado, sem acesso a você. Para facilitar o exercício, convém antes fazer uma lista das atividades que serão realizadas em cada uma das situações. Essa rotina poderá sempre ser alterada, de acordo com a disponibilidade do dono e as características de cada cão. Veja um exemplo de como isso pode ser feito:

18:00 horas (juntos) – o dono chega em casa do trabalho. Entra calmo e, passados uns 15 minutos, estando o cão tranquilo, sai com ele para uma caminhada de 40 a 60 minutos, importante para queimar energias e distrair a ambos.

19:00 horas (separados) – depois do passeio, o cão é posto para descansar por 15 minutos e beber água no canto dele, sem ter acesso ao dono. Em seguida, o dono serve o jantar no canto do cão, o deixa comendo sozinho e vai tomar banho. Depois, entra em seu quarto e fecha a porta para ter mais privacidade (o cão poderá ficar solto pela casa ou continuar no espaço dele). Ao sair do quarto, o dono verifica se o cão comeu. Em caso negativo, retira o pote de comida, que será oferecido na refeição seguinte. A intenção é fazer com que o cão coma independentemente de estar com o dono ao lado.

20:00 horas (juntos) – o cão ganha livre acesso e o dono vai até a cozinha preparar algo para jantar. Enquanto o dono se alimenta, o cão recebe um belo osso para roer ou um brinquedo dispensador de petiscos para se entreter.

21:00 horas (misto) – pequenos pedaços de petisco são espalhados pelo dono em diferentes pontos da casa para o cão procurar. Em seguida, o dono vai à sala assistir TV. A intenção é fazer o cão procurar sozinho os petiscos e, ao terminar, ele se juntar ao dono. É recomendado consultar o veterinário para saber qual tipo de petisco dar e em qual quantidade, de modo que a nutrição do animal não seja prejudicada.

22:00 horas (juntos) – o dono des-enolve alguma atividade com o cão, de forma a lhe dar aten-ção direta, como brincar com uma bolinha, realizar exercícios e truques de adestramento ou, simplesmente, massagear o corpo do animal, fazendo carinho nele.

22:30 horas (misto) – o dono leva o cão para o canto dele, onde fica com ele por 10 minutos, para valorizar o local. Em seguida, sai e deixa o cão sozinho, sem acesso ao restante da casa. Cansado e satisfeito, o cão deverá descansar.

23:00 horas (juntos) – o dono leva o cão para um passeio rápido e para fazer as necessidades na rua ou no quintal. 

23:30 horas (separados) – o dono deixa o cão repousando no espaço dele e vai para a sala, onde permanece por 30 minutos. A intenção é fazer o cão se acostumar a repousar sozinho, mesmo com o dono por perto e acordado.

00:00 horas (a escolher) – o dono vai dormir junto ou separado do cão.
 

Problemas típicos do cão que fica sozinho

Tornar o cão mais independente na presença do dono é o primeiro passo para que ele aceite com naturalidade o fato de ser deixado sozinho, sem ficar reclamando logo que o dono sai. Mas existem também aqueles problemas típicos que ocorrem quando os cães estão sozinhos, como roer móveis e objetos; fazer xixi em lugar errado, especialmente na cama ou no sofá em que o dono costuma se sentar, e em objetos particulares do dono; arranhar a porta, uivar e latir. As maneiras de lidar com essas situações foram abordadas nos seguintes artigos de edições anteriores da Cães & Cia: 

• Ensine seu cão a ficar sozinho em casa (edição 416);

• Como controlar latidos indesejados (edições 385 e 386);

• Como gastar o excesso de energia do seu cão (edição 388);

• Como ensinar o cão a fazer as necessidades no lugar certo (edição 382);

• Como evitar que o seu cão roa os móveis (edição 383);

• Acabe com as reclamações dos vizinhos com medidas simples (edição 415);

• Cão bem comportado com as visitas (edições 417, 418 e 420, que mostram como acostumar o cão a se relacionar bem com as pessoas).