14 cuidados essenciais para quem tem ou quer ter um São Bernardo

Por Samia Malas

Machos podem medir até 90 cm na cernelha e pesar até 90 kg. Veja se esse grandalhão é ideal para você! – Foto: Thais Mazzoco Fotografia/ Santo Chico Fotografia Pet/ Canil Casa do Bernardo/ Cão: Rick da Casa do Bernardo (14 meses)

Confira opinião de três criadores experientes sobre as necessidades de um cão da raça

Muitos brasileiros sonham em ter um São Bernardo, raça de origem sueca bastante antiga que teve o auge de sua popularidade no Brasil na década de 1990, por conta dos filmes do cão Beethoven. Contudo, por ser um cão de porte considerável – exemplares machos podem medir até 90 cm na cernelha e pesar até 90 kg –, a raça não é para qualquer um. Sabendo disso, convidamos três criadores brasileiros experientes para listar os cuidados que esse grandalhão exige no dia a dia. São eles: o médico Lourival Malucho, do canil Casa do Bernardo, de Catanduva, SP, que cria as duas variedades da raça (Pelo Longo e Pelo Curto) há 14 anos; José Francisco das Chagas Júnior, do canil Fetalu, de Portão, RS, que criou as duas variedades da raça por 20 anos, mas a partir de 2020 passou a se dedicar somente ao São Bernardo Pelo Longo; e André Valeriano Neto, do canil Valerianus, de Anápolis, GO, que cria São Bernardo Pelo Longo há 18 anos. 

Como têm faro extremamente aguçado, sentem o cheiro do dono de longe e já ficam ansiosos para recebê-lo antes mesmo que chegue de fato em casa – Foto: Thais Mazzoco Fotografia/ Santo Chico Fotografia Pet/ Canil Casa do Bernardo/ Cães: Thor e Tieta

Lourival conta que viu a raça pela primeira vez quando ainda era adolescente, mas começou a criá-la anos depois, quando se deparou com um filhote à venda por um acaso, em um pet shop. “Assim começou minha vida de amor e dedicação a esta maravilhosa raça. O São Bernardo nos dá um amor que é proporcional ao seu tamanho”, conta Lourival.

Já André se apaixonou pela raça pelo filme Beethoven, mas o que o fez ter um São Bernardo foi ver um exemplar de um amigo da família. “Foi paixão à primeira vista, pois pessoalmente a raça é muito mais bonita e encantadora. Ver aquele cão enorme, supercalmo e carinhoso com seu dono, ou até com uma pessoa desconhecida, foi inacreditável”, relembra André, que nunca imaginou que um dia se tornaria criador quando comprou seu primeiro exemplar da raça.

Lourival Malucho, do canil Casa do Bernardo, recebendo demonstração de carinho típica do São Bernardo – Foto: Thais Mazzoco Fotografia/ Santo Chico Fotografia Pet/ Canil Casa do Bernardo /Cão: Thor (5 meses)

José também se encantou com a raça através de Beethoven, pois seus filhos ainda eram pequenos na época. Compraram seu primeiro exemplar como pet, mas o convívio deu tão certo que logo começou sua criação. “Além de ser um cão muito bonito e chamar muita atenção por onde passa, é uma raça encantadora. Quem tem um São Bernardo nunca mais consegue ficar sem”, assegura. 

A seguir, veja conselhos dados por esses três especialistas na raça. 

Apesar de calmo e tranquilo na maior parte do dia, o São Bernardo adora gastar sua energia brincando – Foto: Arquivo canil Valerianus

1.Se sentir amado

Não podemos esquecer que em sua origem a raça era usada por monges para resgatar viajantes que se aventuravam nos Alpes suíços. Portanto, sempre foi um cão parceiro, de convívio próximo e disposto a participar das tarefas. Assim, a primeira lição sobre a raça é entender que ela não fica bem vivendo sozinha no quintal, pois suas principais qualidades são o amor e carinho em relação às pessoas. “O São Bernardo quer estar sempre presente e perto da família, querendo alegrar e dando carinho a todos, ao mesmo tempo que também pede o nosso carinho”, descreve André. “Imagine um amigo cão que te abraça em resposta ao seu abraço, que te lambe, te puxa para brincadeiras, que demonstra toda a alegria do mundo por estar perto de você”, exemplifica Lourival sobre algumas das demonstrações de afeto diárias da raça. “Um São Bernardo criado com amor e carinho com certeza trará muitas alegrias e felicidades a toda família”, sustenta José. 

2.Estímulo para atividades

 Embora o São Bernardo seja dotado de grande resistência física, após os 7 ou 8 meses de vida ele precisa ser induzido e estimulado a brincadeiras – sempre nos momentos mais frescos do dia –, para evitar que se torne obeso, destaca Lourival. “Ele adora se divertir com água e brinquedos como bolas”, conta o criador. “Quando o São Bernardo não está dormindo (e olha que ele dorme bastante, principalmente depois dos 3 anos), ele quer brincar o tempo todo, tanto filhotes, como adultos”, acrescenta André. 

3. Evite a torção gástrica

O São Bernardo está sujeito à torção gástrica, problema muito comum em raças grandes e gigantes. “Isso acontece quando o cão está com muita fome e come muito rápido, causando a rotação parcial ou, em algumas vezes, total do estômago. Você só percebe esse problema quando ele já está bem crítico em seu cão. A torção causa inchaço abdominal, dor, respiração ofegante e, na maioria das vezes, provoca vômitos. Se isso ocorrer o cão tem que ser levado ao veterinário o mais rápido possível”, alerta André. Uma boa forma de prevenir esse tipo de problema é fracionar a ração diária e evitar que o Bernardo brinque ou se exercite após comer ou beber água. “O ideal é que após a alimentação o cão descanse por algumas horas”, recomenda André. 

4. Alimentação

 Pelo seu porte e peso, a quantidade de ração diária que ele consome até que é moderada: entre 600 e 800 g de ração super premium por dia, porção que deve ser fracionada em duas ou três refeições. “O São Bernardo só terá disposição à obesidade se nunca brincar e nem fazer qualquer tipo de exercício”, destaca André. “Um saco de 20 kg de ração super premium costuma ser suficiente para um mês. A raça não pode ser alimentada em excesso, pois corre o risco de se tornar obesa, causando o aparecimento de diversas doenças como problemas articulares, etc.”, acrescenta José.  

Companheiro fiel: ele adora estar sempre por perto. Na foto, Jesiane, esposa de José, criador do canil Fetalu – Foto: Arquivo canil Fetalu

5. Dia a dia

 Na rotina do lar, José descreve a raça como sendo pacata e muito tranquila. “Esse cão é muito leal à sua família, dócil e de agradável convívio. É equilibrado e adora crianças, adultos e outros animais, passear e receber carinho de pessoas”, explica o criador. “É muito importante que o São Bernardo saiba que há sempre alguém por perto”, ressalta Lourival. Ainda segundo ele, como têm faro extremamente aguçado, sentem o cheiro do dono de longe e já ficam ansiosos para recebê-lo antes mesmo que chegue de fato em casa, para dar aquelas boas-vindas que só um São Bernardo sabe dar: “Ele pula em você assim que te vê”, se diverte Lourival.

6. Espaço ideal

O São Bernardo não pode viver preso, pois isso pode mudar o temperamento calmo e carinhoso da raça. “Nunca crie seu cão isolado no fundo de um terreno, por exemplo, sem ver pessoas ou outros animais, pois poderá se tornar um cão agressivo”, reforça José. “Não podemos esquecer que o São Bernardo é classificado no grupo 2, composto por cães de guarda e trabalho, mesmo que ele não seja usado nessa função há anos”, destaca André. A raça até pode ser criada dentro de casa, mas acidentes podem acontecer. “Por se tratar de uma raça de grande porte, criá-lo dentro de casa pode acarretar acidentes como a quebra de objetos. Se o tutor não se importar com isso, aí tudo bem”, explica André. 

Ter espaço em casa para eles se movimentarem, brincarem e gastarem energia é muito importante – Foto: Thais Mazzoco Fotografia/ Santo Chico Fotografia Pet/ Canil Casa do Bernardo

7. Ambiente correto

 A raça precisa ter um espaço fresco para que possa se abrigar nas horas mais quentes do dia, permanecer em piso antiderrapante e ter água limpa em abundância, sempre com as vasilhas à altura de sua boca. “Caso viva em piso liso pode desenvolver displasia adquirida”, destaca Lourival. “No caso de viver em ambientes internos, caminhadas para exercícios diários de 20 a 30 minutos são importantes, assim como brincadeiras, que entram no gasto energético diário”, conta José.

8. Convívio agradável

A raça convive bem com outros cães quando acostumada. “Por isso a necessidade de convívio com pessoas e outros animais desde cedo. Aliás, quando vive em matilha, é mais brincalhão do que quando vive só com humanos. Com outros cães brinca até se cansar – o que não demora muito”, compartilha Lourival. “Meus cães convivem sem brigas. Convivem bem até com uma gatinha que adotei”, diz André, que percebe uma grande ligação da raça com crianças: “O São Bernardo faz a maior festa com elas, muitas vezes preferindo brincar com crianças do que com adultos. Talvez porque elas tenham mais energia”.  

Fotos: Arquivo canil Valerianus

9. Higiene e beleza

 Os criadores desta reportagem indicam escovação semanal ou de duas a três vezes na semana, para retirada de pelos mortos. A frequência vai depender da quantidade de pelos que o cão está perdendo naquele momento. “Normalmente a troca de pelos ocorre duas vezes ao ano (na entrada do inverno e na entrada do verão). A escova ideal é a rasqueadeira para cachorros”, recomenda José. Já o banho pode ser mensal, mas nunca semanal. “Cuidado especial em períodos de chuva para que o pelo não permaneça úmido por muito tempo, causando dermatites”, alerta Lourival. Sobre a tosa na raça, ela não é recomendada. “O pelo protege o cão. Quando tosado, fica exposto a infecções de pele”, alerta Lourival. 

Ele adora se refrescar na água em dias quentes, mas sua pelagem deve ser sempre seca para evitar dermatites – Foto: Arquivo canil Valerianus

10. Educação

A raça não é difícil de ser treinada. Contudo, é preciso que o Bernardo seja adestrado com carinho, sem que se exija demais dele, aconselha Lourival. “Com calma e da maneira certa ele aprende fácil”, garante. “Como é um cão muito inteligente, não demora muito para aprender. Qualquer pessoa pode ensiná-lo e educá-lo. Mas se você não tem tempo de adestrar seu cão, contrate um profissional da área, pois um cão de quase 100 kg sem limites se torna quase impossível de ser comandado”, aconselha André.

11. De olho na saúde

Um São Bernardo pode apresentar algumas doenças já detectadas como sendo comuns na raça, tais como displasia de bacia e cotovelo, ectrópio, entrópio, cadiopatia, epilepsia e osteossarcoma. “Displasia coxofemoral, que afeta cães de grande porte, pode ser adquirida ou genética, pois macho e fêmea isentos da doença podem produzir um filhote perfeito que, criado em ambiente inadequado, poderá apresentar essa patologia”, explica José. Problemas de pele, segundo André, também são comuns. “Pode decorrer da própria alimentação ou vir de ambientes em que ele tenha alguma alergia. Ou até mesmo origem genética. Para evitar é bom manter uma alimentação sempre equilibrada e o cão sempre limpo e seco”, detalha André, que ainda faz outro alerta: “Antes de comprar um filhote peça ao criador exames de sangue e laudos veterinários que atestem que o cão não tem nenhum problema causado por bactéria ou virose. Canis sérios sempre vão dar garantia de seus filhotes”. 

Lourival conta com a ajuda da filha Beatriz, que é especializada em Radiologia Veterinária e faz exames, inclusive raio-X para displasia de coxa e cotovelo, em seus cães regularmente. 

Lourival e sua esposa Mayra: contato diário com os cães é essencial para fazer um Bernardo feliz – Foto: Thais Mazzoco Fotografia/ Santo Chico Fotografia Pet/ Canil Casa do Bernardo

12. Custo de manejo

“Para que esse cão cresça bonito e saudável existe sim um gasto mensal. Lembre-se que um São Bernardo vive, em média, de 8 a 10 anos. Então antes de tomar a decisão de ter um gigante desse em casa pense bem e converse bastante com sua família”, destaca André. “Todo gasto com veterinário será proporcional ao peso do cão”, continua Lourival. Entre os custos José lembra da vacinação, remédio contra vermes (a cada 6 meses) e pulgas (mensal) e visita ao veterinário no mínimo uma vez ao ano.

13. Tolerância à solidão

 Embora o São Bernardo seja bastante apegado à sua família e exija carinho e atenção diários, ele tolera algumas horas de solidão, para que seu tutor possa trabalhar, estudar etc. “O tempo que o cão poderá ficar sozinho dependerá da forma que foi educado. Seu dono deverá deixar brinquedos ou objetos para roer e brincar”, diz José.

Criador José Francisco com BR Fetalu Algodão no colo: filhote tem apenas 65 dias – Foto: Arquivo canil Fetalu

14. Quer um filhote?

 Se você quer ter um Bernardo, saiba que essa bolinha de pelos de 10 kg vai crescer, e muito! “A raça cresce até os 4 anos – até 1 ano em altura e depois em peso e estrutura”, aponta Lourival. Pesquisar bem o criador antes da compra garante que se tenha um exemplar fiel às características da raça. “Procure sempre por referências do canil. O erro mais comum é querer comprar o filhote muito rápido. Canis sérios geralmente não têm filhotes à pronta-entrega. Procure os que tenham no mínimo 10 anos de tradição com a raça, veja as redes sociais deles, conheça os cães adultos. Vejo muitos criadores que só têm fotos de filhotes. Estes são considerados fábricas de filhotes”, alerta André. “Procure criadores idôneos que realmente visam a saúde dos cães e têm controle de displasia no plantel. No Brasil muitos criadores estão comprometidos com o padrão da raça. Temos várias linhagens, contribuindo para um alto nível genético do plantel brasileiro”, finaliza José.


Agradecimentos:

André Valeriano Neto
Canil Valerianus

(Instagram@canilvalerianus);

José Francisco das Chagas Júnior
Canil Fetalu

(canilfetalu.blogspot.com);

Lourival Malucho
Casa do Bernardo

(www.canilcasadobernardo.com.br).


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