Basenji: Esperto e versátil

O vermelho e branco é a cor mais comum da raça em todo o mundo – Foto: Edmilson Reis/Cão: Malibu Itapuca/Propr.: canil Itapuca
Em expansão, a raça Basenji pode desempenhar várias atividades 

Raramente visto nas ruas, o Basenji ainda é relativamente desconhecido pela maioria dos proprietários de pets. Mas, nos últimos anos, sua popularidade mundial aumentou. “A raça sempre foi e permanece sendo incrível, só que agora, com as redes sociais, as informações circulam sobre ela com mais facilidade por todo o planeta”, comenta Savio Steele, do canil Itapuca, de Maricá, RJ. Há atualmente Basenjis da criação dele em 32 nações. “Inclusive exportei recentemente para a China o macho Havaiano Itapuca, world winner na última Exposição Mundial da FCI e, para a Rússia, a fêmea Lupita Itapuca, o Basenji mais vencedor da atualidade naquele país”, relata Savio.

Estatísticas 

No País, em 2020, o Basenji obteve o maior número de registros emitidos para a raça pela Confederação Brasileira de Cinofilia desde, pelo menos, 2001: 115. Eles estão distribuídos por quatro de nossas cinco regiões (no ano passado, houve pedigrees concedidos para Basenjis em estados como Bahia, Ceará, Distrito Federal, Paraná, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul). “Quanto ao Brasil, acho que cada vez mais as pessoas estão tendo a atenção despertada para as raças menos modificadas pelo Homem, caso não só do Basenji, mas também do Border Collie, Jack Russell etc. Também há um apelo em relação à saúde, já que os Basenjis, de maneira geral, são bem saudáveis hoje em dia”, diz Savio. Ele conclui: “eu mesmo venho criando um pouco mais atualmente e, a cada ano, tenho mais procura pelos filhotes do meu canil”. 

Em relação ao exterior, há alguns anos países com cinofilias tradicionais, membros ou associados à Federação Cinológica Internacional (FCI), nem sequer registravam exemplares da raça. Entre 2019 e 2020, no entanto, todos eles contaram com emissão de pedigrees para Basenjis. Na Alemanha, 33 espécimes foram registrados em 2019; na Espanha, 12; na França, 148; na Itália, 77; na Holanda, 37; na Austrália, 138 Basenjis receberam registros em 2020; na Dinamarca, 30; na Finlândia, 68; na Noruega, 23; em Portugal, 4; no Reino Unido, 84; e na Suécia, 78. 

 

A Rússia é a nação que conta atualmente com o maior número de registros anuais para Basenjis: em 2020, por exemplo, 1056 Basenjis foram registrados pela Russian Kynological Federation. “Nos últimos dois anos, a popularidade do Basenji em meu país cresceu bastante”, explica Elizabeta Balova, do canil Adebanke’s, da Rússia. Ela acrescenta: “seu tamanho e tipo de pelagem se tornaram mais conhecidos, e a maioria das pessoas nas grandes cidades russas vive em apartamentos, que são bastante pequenos, onde é confortável manter um Basenji. Além disso, os exemplares da raça são curiosos, ativos, corajosos e rápidos, ou seja, adequados para esportes”. 

Invasão

Exemplar tigrado praticando nos Estados Unidos o barn hunt, simulação de caça a ratos em celeiro – Foto: Debbie A. Maerker/Cão: Feigh/Propr.: canil sinbaje

A maior associação cinófila dos Estados Unidos, o American Kennel Club (AKC), não é afiliado à FCI e não divulga o número de registros emitidos para cada raça desde 2010. Assim, lá, o que vem sendo observado nos últimos anos é uma maior participação dos Basenjis nos esportes com cães, o que também demonstra a versatilidade da raça.

A norte-americana Linda Siekert, do canil sinbaje, informa que os esportes caninos que vêm contando com participação mais significativa de Basenjis nos Estados Unidos ultimamente são o lure coursing (em que o Basenji persegue um saco plástico, preso a um barbante, puxado por um sistema operado por uma bateria: há subcategorias, como o racing, cujo percurso é sempre em linha reta, enquanto no lure coursing os terrenos são variados); o rally (no qual o dono conduz o cão por uma pista, orientados sobre o que fazer por sinalizações cujo número pode variar conforme a categoria); provas de obediência; tracking (em que o exemplar rastreia uma pista e indica os objetos deixados nela, como peças de roupas); o agility; e o nosework/scentwork (o cão precisa identificar e localizar pelo faro vários tipos de odores específicos em ambientes internos, externos, recipientes ou enterrados).

Basenji preto e branco fazendo agility nos EUA: a cor é a menos vista naquele país, no Brasil e na Rússia – Foto: Arquivo do canil Tammen/Cão: Tammen’s Can’t Touch This (Arrow)

O mais popular entre os criadores e tutores da raça, tanto na Europa como nos Estados Unidos, é o lure coursing, já que a maioria dos Basenjis possui um desejo inato de perseguir qualquer coisa que se mova, o que os torna muito competitivos nesse tipo de disputa. É seguido, na ordem, pelo agility (um clássico entre os fãs da raça tanto nos Estados Unidos como na Europa: o Basenji é naturalmente ágil e atlético); nosework/scentwork, cuja popularidade vem crescendo entre os donos de exemplares da raça não só dos Estados Unidos como também da Rússia (até pelo fato de que o Basenji pode sobressair facilmente: ele possui faro apurado e, além disso, a atividade oferece muitas recompensas em alimentos, o que só faz ele querer trabalhar ainda mais duro para encontrar o que procura). “Quanto à obediência e ao rally, eles são viáveis para a maioria dos proprietários de primeira viagem, mas não tão divertidos quanto os outros esportes mencionados – no entanto, sem alguns fundamentos de obediência, as outras atividades podem ser um pouco mais difíceis de serem realizadas e, assim, o melhor é não ignorá-los”, comenta Linda. “Não só no rally, mas também no agility, o fato de os exemplares da raça serem naturalmente espertos faz com que sejam aptos a aprender os exercícios facilmente, mas raramente (ou nunca) são vistos competindo nos níveis mais altos: eles aprendem rapidamente, mas nem sempre se importam com aquilo que o condutor solicita e, assim, você deve estar mais interessado em se divertir e estreitar os laços afetivos com o Basenji do que em ganhar os prêmios e honrarias mais importantes”, observa a ex-adestradora norte-americana Andrea Stone, do canil Saorsa.

Foto a esquerda: O Basenji se destaca no lure coursing pelo alto instinto de caça à presa – Foto: Mikhail Manukhin/Cão: Kaylas Lady/Prop.: canil Adebanke’s – Foto à direita: O Basenji tem talento natural para o nosework – Foto: Arquivo do canil sinbaje/Cão: Ford

Linda comenta que o tracking exige muita mão-de-obra do condutor (que precisa prestar atenção em seu parceiro canino e apoiá-lo em tudo que solicita) e, portanto, não tem um interesse tão amplo entre os tutores de Basenjis. “Mas aqueles que participam se dão bem”, afirma a criadora. “Os exemplares da raça podem realmente fazer quase qualquer esporte canino para o qual sejam treinados a praticar, mas é justamente na parte do adestramento que a maioria das pessoas encontra dificuldades, pois um Basenji pode ser difícil de adestrar em virtude de sua independência: trabalhos de treinamento com reforço positivo – ou seja, recompensando a cada acerto – são os melhores para esta raça”, completa Laura Gilchrist, do canil Tammen’s Basenjis, dos Estados Unidos, país onde, segundo a criadora, Basenjis estão sendo também empregados recentemente como cães de serviço e em terapias com animais.

Criadora Linda Siekert competindo com um de seus Basenjis no rally – Foto: Sirius/Cão: Clay

Exposições

Considerando, porém, todos os tipos de atividades caninas, as mais populares entre os criadores de Basenjis nos Estados Unidos são as exposições de estrutura. “Tipicamente o Basenji exibe porte e movimentação muito aristocráticos, que impressionam as pessoas”, diz Savio, cujo canil gerou o Basenji número 1 daquele país atualmente: Malabo Itapuca. “Já o Basenji mais vencedor dos Estados Unidos de todos os tempos é o Zindika’s Johnny Come Greatly, que, por lá, é recordista de Best in Show e ganhou mais de uma Exposição Nacional da raça”, comenta Savio.

Malabo Itapuca, exemplar tricolor, ou seja, preto, branco e castanho – Foto: Arquivo do canil Itapuca

Pet da família 

Mas, tanto no Brasil como na Rússia e nos Estados Unidos, a principal função do Basenji é ser um cão de companhia. “Ele se destaca nesta atividade por aqui pela rusticidade, pelo porte compacto, pela adaptação ao clima nacional – trata-se de uma raça cujo pelo é curto e, em virtude de sua baixa oleosidade, com quase nenhum ácaro causador de alergias aderido –, pela simplicidade e versatilidade”, enumera Savio. Pelo padrão FCI, a altura e o peso ideais para machos são, respectivamente, 43 cm e 11 kg, e, para fêmeas, 40 cm e 9,5 kg. “A raça sobressai como pet da família principalmente pela falta de latidos”, comenta Laura. Ela se refere a uma das características mais incríveis do Basenji: o fato de ele não latir. Porém, como o próprio padrão da raça adotado pela FCI adverte, ele “não é mudo, tem um barulho próprio e especial, uma mistura de chortle (risadinha de chacota) com yodel (cantar em que se alterna abrupta e continuamente a voz normal e o falsete)”.

A cauda do Basenji é mantida enrolada sobre a garupa boa parte do tempo, com curva simples ou dupla – Foto: Arquivo do canil sinbaje/Cão: Ph’nx

Expedições

A raça é originária da África Central. Ela foi trazida de lá para o Ocidente a partir dos anos 1930. A criação se iniciou por meio de um número muito pequeno de exemplares e, assim, consolidou-se com uma taxa de consanguinidade bastante grande, o que levou ao aparecimento de doenças genéticas, como a Síndrome de Fanconi, que pode causar insuficiência renal. Com isso, desde então, criadores (principalmente dos Estados Unidos, mas também da Europa) vêm organizando expedições esporádicas à terra natal do Basenji, com o objetivo de importar exemplares nativos e introduzi-los nos plantéis reprodutivos, renovando as linhas de sangue. 

Savio Steele com filhotes nascidos em seu canil, o Itapuca, que há 20 anos cria Basenji – Foto: Edmilson Reis

Entre 1987 e 1988, por exemplo, ocorreram duas dessas viagens: o AKC decidiu então, em 1990, conceder uma autorização especial a esses cães para que eles pudessem ser registrados como plantel da raça, desde que os exemplares nativos cumprissem requisitos conforme votação de membros da entidade, que tomou a mesma medida em 2009. Isso porque, entre 2006 e 2015, outras dessas expedições à África Central foram promovidas. “O AKC tomou essa decisão por observar os fantásticos resultados obtidos nas linhagens com a expedição de 1987/1988”, explica Linda. “Michael Work foi o criador mais presente nessas últimas expedições, e tive o prazer de conhecê-lo em Orlando, durante uma exposição no final de 2019. A gente conversou justamente sobre esse assunto”, relembra Savio. Ele conta ainda que possui uma fêmea de Basenji, nascida nos Estados Unidos, que é filha de dois cães vindos dessas expedições na África.

Vale ressaltar que recentemente foi criado um teste de DNA para a Síndrome de Fanconi. “Sabemos agora que ela é herdada por gene recessivo simples e podemos então testar nossos reprodutores, tornando, assim, fácil evitar gerar qualquer cão com esta doença novamente”, finaliza Andrea. 

Por: Fabio Bense

Associação:

ORTHOPEDIC FOUNDATION FOR ANIMALS (oferece o teste genético para a Síndrome de Fanconi): www.ofa.org

Agradecimentos:

ANDREA STONE, canil Saorsa – https://www.facebook.com/Regan-BIF-GCHB-DC-Fopaws-Touch-of-Evil-at-Saorsa-RA-SC-ATD-AOM-200858979975620

ELIZAVETA BALOVA, canil Adebanke’s – handlerliza@yandex.ru, Facebook: Elizaveta Balova, Instagram: @adebankes.basenjis

LAURA GILCHRIST, canil Tammen’s Basenjis – www.tammensbasenjis.com, Facebook: Tammen’s Basenjis 

LINDA SIEKERT, canil sinbaje – www.sinbaje.com

SAVIO STEELE, canil Itapuca – www.canilitapuca.com.br, Instagram: 

@basenjisitapuca

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