Histórias de pets e donos durante a quarentena

Foto: nathanaparise/iStockphoto.com
Os cães e gatos também viveram muitas situações emocionantes e mudanças nos meses de reclusão vividos em função da pandemia
Leopoldo (à esq.) e Gregório (à dir.) perderam o irmão Bartholomeu (ao centro) na pandemia, mas deram apoio emocional aos tutores – Foto: Arquivo pessoal

Depois de mais de um ano de pandemia, o isolamento social atingiu – e continua atingindo – profundamente a vida das pessoas. Os impactos na saúde mental e física, trouxeram mudanças de rotina, e todos – tutores e pets – precisaram se adaptar. Se você é “pai ou mãe de pet”, com certeza tem alguma história de pandemia para contar. Confira algumas delas que foram compartilhadas com a Cães & Cia.pets e donos durante a quarentena

Rotina mais saudável

A quarentena atingiu a família da professora universitária Priscila Marinheiro Pimenta, de São Sebastião, SP, e de seus pets de várias maneiras intensas. Primeiro, o mais velho dos três cachorros da família, Bartholomeu, faleceu, abalando sua tutora, que entrou em depressão. “Sair da depressão não foi fácil. Mas os meninos ajudaram muito”, explica Priscila, ao se referir a Gregório e Leopoldo, seus outros dois filhos caninos. Eles decidiram mudar os hábitos e o estilo de vida para o bem de todos: passaram a viajar para locais isolados no meio da natureza, onde podiam fazer trilhas e caminhadas ao ar livre. “Começamos a ter mais qualidade de vida com o contato com a natureza e as atividades físicas.  Além disso, o Gregório e o Leopoldo deram para mim e meu marido apoio emocional, nos ajudando e trazendo equilíbrio para as nossas vidas”, pondera.

O Yorkshire Yoshi se tornou influencer no Instagram durante a pandemia graças ao perfil criado por sua tutora – Foto: Arquivo pessoal

Pet influenciador

Como muitos tutores, a servidora pública Gisele da Cruz Gomes Gonzaga, do Rio de Janeiro, passou a trabalhar em home office na quarentena. E, como muitos tutores, ela também aproveitou a oportunidade de ficar em casa para passar mais tempo perto de seu cachorrinho, o Yorkshire Yoshi, de 3 anos. Alvo dos flashes da câmera de Gisele, o pet foi de anônimo a “instagrammer” quando a tutora decidiu começar um perfil para Yoshi na rede social, o @yoshi_gonzaga. Com menos de 1 ano da criação da página, Yoshi já conta com mais de 12 mil seguidores que acompanham relances do seu dia a dia. 

Quilos extras

Acima do peso, o Golden Dodi precisou perder alguns quilos na quarentena – Foto: Arquivo pessoal

Uma das maiores reclamações da quarentena foram os quilos extras que o período de isolamento trouxe para muita gente. E não foram só os humanos que passaram por esse problema. A tutora Sandra Agnone percebeu que seu Golden Retriever Dodi, de 5 anos, começou a ganhar bastante peso durante os primeiros meses do isolamento. “Nos passeios, eu percebia que ele ficava mais cansado e ofegante. Até para levantar e brincar tinha um pouco de dificuldade”, conta. Bem acima do seu peso ideal, Dodi precisava perder alguns quilos. A meta foi atingida depois de uma dieta rigorosamente controlada pela tutora. Ele emagreceu ainda durante o isolamento (um grande feito!) e recuperou a boa forma. Dodi também teve que se acostumar à nova realidade de não mais parar nas caminhadas para cumprimentar os admiradores pelo caminho. Por enquanto, as caminhadas precisam ser rápidas, e os fãs acabam se contentando em apreciar o cachorro pela janela durante os passeios de carro. Mas Sandra garante que ele sente saudades de andar pelo shopping.

O gato Killua aprendeu a fazer uma cama usando a manta e as almofadas do sofá – Foto: Arquivo pessoal

Conforto e atenção

Se até nós, humanos, temos dificuldade de ficar longe da cama quente e confortável durante a quarentena, imagine os pets. O gatinho Killua resolveu o problema. Puxando as almofadas e a manta do sofá, ele monta a própria caminha. “Até parece que foi um humano que fez”, brinca a professora Lais van Ham, de São Paulo, que tem trabalhado em home office desde o começo da pandemia. Ela explica que o irmão de Killua, Gon, costuma fazer várias participações em suas aulas on-line, inclusive mostrando suas partes íntimas para a câmera. Tudo por atenção. “O Killua quer o tempo todo sentar-se em meu colo. No geral, os dois estão muito mais dependentes desde que a quarentena começou”, comenta. 

Mudança de vida

Depois de ficar internada com covid-19, Vânia Martins mudou de vida e começou a trabalhar com banho e tosa para ficar mais perto dos seus cães – Foto: G&R Produções

Pouco tempo depois que a quarentena começou, em março de 2020, Vânia Martins, de São Paulo, contraiu a covid-19 e desenvolveu a doença de uma forma mais grave, precisando de internação. Ela chegou a ficar 21 dias intubada com 73% do pulmão comprometido. Durante o dramático período, os três filhos caninos de Vânia, os Lhasa Apso Thor, Kyara e Marley, foram cuidados por sua família, mas pareciam muito tristes. “O Thor passava o dia na janela esperando por mim, só saía para fazer as refeições”, lamenta a tutora. Durante os primeiros dias de recuperação em casa, Vânia também precisou se manter afastada dos pets. “Foi um tempo muito difícil, pois estava muito limitada pela fraqueza muscular e dependendo dos outros para tudo. Não conseguia me locomover sozinha. Os três ficavam na porta do meu quarto pedindo para entrar, mas tínhamos medo de que ainda estivesse com o vírus e pudesse transmitir. Foi muito triste ficar longe deles. Sofri muito com isso e tenho certeza de que eles também sofreram.” Com a recuperação da doença, Vânia decidiu mudar sua vida e priorizar seus amores peludos: fez um curso de banho e tosa e mudou de profissão. “Hoje estou me dedicando a cuidar desses seres maravilhosos, que nos dão tanta alegria e forças para continuar”, comemora.

A Frenchie Channel passou dias na porta do quarto da tutora Nayuri, que precisou fazer isolamento ao contrair a covid-19 – Foto: Arquivo pessoal

Na saúde e na doença

Assim como Vânia, a tutora de Channel, uma Buldogue Francês de 3 anos, também teve covid-19 e precisou ficar isolada dentro de casa. A atriz Nayuri Abe, de Arujá, SP, ficou reclusa no quarto, e a pet praticamente se mudou para a porta do dormitório, sem sair do lugar nem mesmo para fazer as necessidades. “Channel mudou da água para o vinho nesses dias. Ela normalmente é muito agitada, ligada no 220V. Mas passou dias de plantão na porta do quarto da Nayuri”, conta a empresária Patrícia Abe, mãe da atriz que precisou cuidar da pet na ausência da tutora. Tamanho o grude da Frenchie  Channel, Patrícia precisou colocar o tapete higiênico ao lado da porta. “Quando abria a porta para levar a alimentação para Nayuri, a Channel ficava parada choramingando e virando a cabeça de um lado para outro, fazendo gracinhas. Parecia falar com os olhos: ‘não se preocupe, estou aqui’. É o amor mais puro e verdadeiro que existe nessa vida”, completa Patrícia, emocionada.

Ansiedade: como lidar?

O terapeuta canino Lucas Bispo tratou a cachorra Luna, que ficou mais ansiosa e agitada durante a quarentena – Foto: Arquivo pessoal

Outra consequência da quarentena, infelizmente recorrente, são os efeitos negativos na saúde mental das pessoas. E, mais uma vez, os humanos não foram os únicos atingidos. A empresária Andrea Linhares Azevedo, de São Carlos, SP, conta que sua cachorra de 4 anos, a Luna, já tinha comportamentos nervosos desde filhote. “Ela estranhava pessoas e outros cachorros. Porém, essas características se acentuaram muito com a pandemia. A agitação era tanta, que eu evitava que ela tivesse qualquer estímulo externo, isto é, tinha a sensação de que precisava colocá-la em uma bolha de proteção”, lembra. O problema ficou tão acentuado, que Andreia buscou ajuda do terapeuta canino Lucas Bispo. “Ele foi trabalhando não somente com ela, mas comigo também. Percebi que meus sentimentos e sensações estavam refletindo nela. Conforme fui atentando para isso, me senti mais segura diante dela. Os resultados apareceram em pouco tempo”, explica a empresária. Depois do tratamento, Luna passou a se sentir mais calma, feliz e confiante, assim como a própria Andreia. “Hoje em dia, ela adora os passeios, convivendo muito bem com todos por quem passa. Até começamos a praticar canicross, algo que antes me parecia impossível”, conta a tutora. 

O terapeuta canino explica que aumentou em 50% os seus atendimentos durante a pandemia e que a maior parte dos relatos dos tutores referiam-se a pets com comportamentos ansiosos, agitados e agressivos. “Eles conseguem sentir quando estamos com medo, ansiosos, tristes, felizes ou agitados e acabam projetando esses mesmos sentimentos. Muitas vezes, isso gera comportamentos indesejados”, alerta. A principal orientação de Lucas é projetar uma energia calma e assertiva quando estamos nos dedicando aos nossos cães. “Seja durante o passeio, na alimentação ou na hora da brincadeira e do afeto. É preciso respeitá-lo, estimulando-o mais com pessoas, barulhos e outros cachorros. Dar afeto também significa colocar regras e limites. Dessa forma, seu melhor amigo ficará mais estável e feliz”, conclui.

Problemas pós-quarentena 

Muitos lares têm acompanhado mudanças, situações engraçadas e também preocupantes nos seus pets graças ao isolamento social provocado pela quarentena. Mas a médica-veterinária Marina Santoro alerta para um próximo problema que pode surgir com o retorno às atividades fora de casa, após a melhora da pandemia. Ela lembra que, para muitos tutores e seus pets, a quarentena modificou a rotina. As pessoas estão mais presentes no dia a dia dos cães e gatos, e eles se acostumaram e se apegaram mais. “Cães e gatos são animais muito rotineiros, e a previsibilidade é sinônimo de bem-estar para eles. Por isso, quando há qualquer alteração na rotina desses animais, é comum o aparecimento de alterações emocionais, que, se não tratadas corretamente, podem se tornar alterações físicas. O maior exemplo disso é a Síndrome da Ansiedade por Separação, um problema emocional sério, em que o cão pode entrar em pânico quando o dono sai de casa”, exemplifica. O pet que apresenta Ansiedade por Separação pode desenvolver muita dificuldade de lidar com a ausência do tutor novamente. “Os sintomas podem ser desde salivação, tremores e choramingo, até fazer suas necessidades no lugar errado, destruir objetos e perder o apetite”, esclarece Marina. A principal dica para evitar e tratar os problemas mencionados é priorizar mudanças graduais na rotina, ou seja, manter o pet em outro cômodo da casa por algumas horas, começar a se ausentar por pouco tempo e, depois, ir aumentando esse período, além de oferecer atividades nas quais o pet possa interagir sem o tutor. “O pet precisa ter uma rotina bem estruturada e se acostumar aos poucos com qualquer mudança”, finaliza.


Por: Aline Guevara


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