Akita: amigo oriental

Por Fabio Bense

Foto: Thábia Padoin

Também chamada de Akita Inu e Akita Japonês, a raça é usada principalmente para companhia, mas também é protetora da família

Na década de 1990, o Akita chegou a figurar entre os dez cães que mais recebiam pedigrees no País. Tal fato ocorreu em 1996, quando 2.486 exemplares foram registrados pela Confederação Brasileira de Cinofilia (CBKC), o 10º maior número entre as raças reconhecidas pela entidade naquele ano. Nas décadas seguintes, tal patamar nunca chegou perto de ser alcançado e períodos de queda intercalaram-se com outros de aumento no número de pedigrees emitidos. 

Akita vermelho–fulvo: cor mais popular da raça – Foto: Thábia Padoin

Nos últimos três anos, os registros concedidos a Akitas não ultrapassaram a casa dos mil exemplares. E, há cinco anos, estão em declínio: se, em 2014, 1.134 exemplares da raça receberam pedigrees da CBKC, em 2015 foram 1.011; em 2016, 1.010; em 2017, 894; em 2018, 890; e, em 2019, 703. “Na verdade, a queda de registros de cães vem sendo observada para muitas raças, seja pela redução de ninhadas ou pela opção de não registrar os filhotes, frente à imaginação errônea de que o certificado de pedigree possa onerar sobremaneira o cão”, comenta o juiz de todas as raças e presidente do Kennel Clube do Rio Grande do Sul, Pedro Lang, do canil Tibiquary, de Porto Alegre, o melhor criador da raça pelo ranking CBKC por 15 anos.

Vale ressaltar que tais cifras ainda são significativas no atual cenário da cinofilia mundial e superam, inclusive, a média anual de registros concedidos para a raça em território nacional na segunda metade dos anos 2000. Além disso, o Conselho Brasileiro da Raça Akita fez um levantamento em 2019, justamente quando foi criado, que apontou mais de 35 canis da raça no País, número nada desprezível. “Não vejo uma queda quanto à popularidade do Akita: ele tem um público seleto, talvez pequeno, mas fiel na sua preferência pela raça”, analisa Pedro, também membro do Comitê Cinotécnico do Conselho.

Exterior

 Em praticamente todos os países do globo o Akita tampouco é um fenômeno de popularidade. Tanto que, no ano passado, levando-se em conta as principais entidades que emitem registros em nações de grande tradição cinófila, apenas 221 Akitas receberam registros na Espanha; 194, no Reino Unido; 189, na Alemanha; 124, na Finlândia; 73, na Holanda; 55, na Austrália; 35, na Suécia; 25, em Portugal; 21, na Noruega; e somente 14, na Dinamarca. Mas Pedro observa que, considerando os países membros da Federação Cinológica Internacional (FCI), ainda há muitos criadores em nações como França, Itália e Rússia. “Existem realmente muitos Akitas em meu país, onde eles são particularmente admirados”, comenta Emilie Pimbert, do canil O Chanur, da França. Lá, no ano passado, 1.290 Akitas receberam registros da Sociètè Centrale Canine

Foto: Arquivo do canil Jardin d’Arcos

Já na Itália, 1.524 exemplares ganharam pedigrees do Ente Nazionale della Cinofilia Italiana em 2019. “É evidente a influência do filme Sempre ao Seu Lado no aumento da popularidade da raça em meu país”, conta a juíza cinófila italiana Maria Grazia Miglietta, delegada da World Union of Akita Clubs para o Club Italiano Razze Nordiche. “Em 2002 foram apenas 332 exemplares registrados e, posteriormente, sucederam-se números variáveis, mas sempre relativamente baixos. Até que, com o lançamento do filme no final de 2009, os pedigrees emitidos para Akitas tiveram crescimento de quase 50% entre os anos 2010 e 2011, com um número de registros superior a 1.500, o que até nos deixou preocupados, pois, ainda que seja uma raça maravilhosa, por certo não é adaptada a todas as pessoas e urge proporcionar a esses admiradores uma maior quantidade de informações sobre ela”, afirma Maria Grazia. Ela conta ainda que, nesse período, o Akita passou a ser na Itália a raça mais numerosa do grupo 5, voltado aos cães spitz e do tipo primitivo, e que o ano com o maior número de pedigrees emitidos ocorreu em 2017, com quase 1.800 filhotes nascidos. O filme Sempre ao Seu Lado retrata a história real de um Akita chamado Hachiko, que escancara a fidelidade típica da raça: Hachiko ia diariamente à estação de trem Shibuya, em Tóquio, para receber o dono na hora em que este voltava do trabalho – atitude repetida mesmo após a morte do proprietário; por sete anos Hachiko permaneceu na expectativa de que o dono aparecesse. “Quem não queria um Hachiko em casa?”, se pergunta Maria Grazia.

Na Rússia, a Russian Kynological Federation (RKF) não divulgou quantos Akitas foram registrados nos últimos dois anos. “Mas, até pelo fato de meu país ser muito grande, estimo que os números de pedigrees emitidos para exemplares da raça por aqui superam, em muito, os da França e Itália”, afirma a russa Marina Sharpan, do Rosia Kara Kennel. Ela calcula que, ultimamente, mais de 4 mil Akitas são registrados anualmente pela RKF. “A raça é realmente muito popular na Rússia, em primeiro lugar porque a Natureza a premiou com uma bela aparência, na qual se destaca sua maravilhosa pelagem”, relata ela, que completa: “O fato de o presidente Putin possuir um Akita e de a raça ser considerada por nós russos um talismã para a saúde são outras razões para seu sucesso”.

Akita branco com Pedro Lang, que cria a raça há 30 anos – Foto: Thábia Padoin

No Japão, país nativo da raça, apesar de apenas 269 Akitas terem recebido pedigrees do Japan Kennel Club (JKC) em 2019, a mais tradicional entidade da raça naquela nação costuma registrar de 3 a 4 mil Akitas por ano: trata-se do Akita Inu Hozonkai (AKIHO), fundado em 1927 e não afiliado à FCI. “Os criadores de lá preferem registrar no AKIHO, outro sistema que valoriza basicamente a tipicidade do cão, e não a estrutura e a movimentação como na FCI”, explica Pedro. “Os Akitas registrados no JKC geralmente são os que serão exportados do Japão, já que o registro JKC permite obter o pedigree FCI pelo mundo, e é justamente por isso que existem poucos”, explica Emilie, cujos reprodutores de seu canil são de linhagens japonesas. “A maioria dos Akitas registrados no JKC também tem pedigree AKIHO”, completa ela.

Nos Estados Unidos, a criação se concentra no Akita Americano, considerado outra raça pela FCI, cuja história, pelo menos em seu início, é similar à do Akita abordado por esta reportagem.

Funções

 Como cão de companhia, as melhores qualidades da raça são a lealdade e fidelidade ao seu proprietário. “Ele desempenha perfeitamente tal função, por sua lendária devoção ao dono e por sua beleza que ilumina a casa”, conta Marina. “Apesar de escolher um dono preferido, a quem é mais apegado, o Akita será sempre afetuoso com todos os membros do lar e aceitará bem os amigos da família”, garante Pedro.

Trufa (nariz) preta, a preferida em Akitas brancos e obrigatória nos vermelhos e tigrados – Foto: Arquivo do canil Tibiquary

“Na Rússia, a raça é criada atualmente para companhia”, aponta Marina. “Na França, oferecer companhia é praticamente o único serviço prestado pelo Akita nos dias de hoje: ele não é considerado um cão de trabalho por aqui”, relata Emilie. “Na Itália, o Akita agora é um cão puramente de companhia”, diz Maria Grazia. Não à toa o padrão da raça adotado pela FCI, elaborado em 2001 e atualizado em 2015, classifica o Akita como cão de companhia, nada constando sobre a tradicional função de guardião exercida pela raça. “O Akita não é mais tido como um cão de guarda em meu país”, informa a francesa Brigitte Giraud, do canil Jardin d’Arcos. “Mesmo no Japão ele não é mais usado ou selecionado para proteção”, afirma Emilie, que viaja com certa frequência para o país oriental e é membro do Nihon Ken Hozonkai, associação nipônica voltada à preservação e manutenção de seis raças caninas japonesas, incluindo o Akita.

“Os tigrados possuem aspecto mais intimidador e talvez por isso haja poucos exemplares da cor na França”, diz Brigitte – Foto: Arquivo do canil Jardin d’Arcos

“Realmente, em todo mundo a procura e o desejo das pessoas é pelo atributo companhia, mas, pelo menos no Brasil, o Akita tem como funcionalidade também a guarda, na qual continua sendo uma excelente opção”, afirma Pedro. Ele conta que, em nosso país, muitos lares adotam o Akita como guardião graças às suas qualidades no serviço de proteção dos entes queridos e do seu território. “A raça faz guarda silenciosa, não late em vão, o faz tão somente em situações extremas. Isso garante tranquilidade aos membros da família, pois eles sabem que, quando o Akita latir, algo estranho estará verdadeiramente acontecendo.” Pedro acrescenta: “Outros atributos importantes do Akita para essa função são a sua audição e a agilidade, que fazem com que se apresente rapidamente ao local suspeito”. 

Cauda grossa, portada enrolada sobre as costas: traço típico da raça, que pode ser observado desde a infância – Foto: Arquivo do canil Tibiquary

“Na França existem raros Akitas que são usados como cães de terapia em hospitais e lares de idosos”, conta Emilie. “Há realmente alguns exemplares da raça utilizados para essa função na França, aproveitando-se o fato de os Akitas serem calmos e muito voltados ao ser humano. Além disso, se o treinador for experiente na lida com esses cães, terá atitude firme, mas não autoritária, e conseguirá obter obediência de um Akita, que não é um cachorro fácil de treinar”, completa Brigitte. “Obedientes e gentis, os Akitas me ajudam bastante na recuperação de um AVC que tive há um ano”, relata Natalia Zhuchenko, do canil Sin’yu Ken, da Ucrânia. Nesse tipo de serviço os cães auxiliam não apenas proporcionando companhia para quem passa a ficar a maior parte do tempo em casa, mas também em questões relacionadas à mobilidade. Por exemplo: pegando objetos que caem no chão e, no caso das raças de porte grande como o Akita, servindo de apoio quando as pernas da pessoa estão instáveis. De acordo com o padrão CBKC/FCI, os machos da raça devem medir de 64 a 70 cm, enquanto que as fêmeas vão de 58 a 64 cm.

Nas exposições do sistema CBKC/FCI a estrutura e o movimento do Akita são valorizados – Foto: Thábia Padoin

No Brasil, os exemplares da raça também se destacam nas exposições caninas. De 2006 a 2019 foram concedidos 31 prêmios de Best in Show (melhor da exposição) para Akitas adultos em eventos da CBKC. “Um bom Akita tem presença impactante em pista, sobretudo pela sua nobreza e expressividade demonstrada na sua aparência geral típica, notadamente pelos olhos pequenos e triangulares, orelhas inclinadas para frente e pelo formato da cabeça”, explica Pedro. “Além de uma boa estrutura e tipicidade, movimentação com paralelismo de seus membros combinada a um temperamento equilibrado faz com que cães da raça sejam notados, apreciados e valorizados nas exposições”, completa ele. O padrão CBKC/FCI aceita as seguintes cores: vermelho-fulvo, sésamo (pelos vermelho-fulvo com as pontas pretas), tigrado e branco. Todas elas, exceto a branca, devem apresentar o urajiro, pelagem esbranquiçada nas laterais do focinho, nas bochechas, na face ventral da mandíbula, pescoço, peito, tronco, cauda e na face interna dos membros.

Em geral, o filhote de Akita se torna um adulto bastante bem-comportado – Foto: Arquivo do canil Jardin d’Arcos

Manutenção

Pedro afirma que o Akita é extremamente rústico, do tipo que raramente precisará visitar um veterinário. “Quanto à higiene, pode parecer exagero, mas é até possível que o exemplar da raça tome banho apenas a cada 6 meses, pois ele não tem cheiro de tão higiênico: o próprio Akita se lambe para se manter limpo”, garante o criador. A frequência de banhos normalmente adotada é de a cada três meses. Uma escovação por semana basta para remover os pelos mortos e manter bonitos os demais. Já na época da troca de pelos, o que acontece a cada 6 meses, durante cerca de 10 a 15 dias, convém realizar escovação diária, com escova de alfinete (pin brush) ou pente de inox com dentes largos.


Agradecimentos:

WORLD UNION OF AKITA CLUBS – www.wuac.info

BRIGITTE GIRAUD, canil Jardin d’Arcos – www.jardindarcos.com

EMILIE PIMBERT, canil O Chanur – www.chanur-akita.com, www.facebook.com/chanur.akita, http://twitter.com/ChanurAkita

MARIA GRAZIA MIGLIETTA – Mgmiglietta@gmail.com

MARINA SHARPAN, Rosia Kara Kennelwww.akitaros.ru, akitaros@gmail.com

NATALIA ZHUCHENKO, canil Sin’yu Ken – www.facebook.com/messages/t/100001377495499

PEDRO LANG, canil Tibiquary – (51) 99968-4905, www.akitabr.com.br, akitabr@gmail.com, Instagram: caniltibiquary


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