Dermatite atópica: como lidar com ela?

Por Aline Guevara

Coceira é um dos sintomas da dermatite, por isso que ela é tão confundida com outras doenças – Foto: adogslifephoto/iStockphoto.com

Difícil de ser diagnosticada, a doença, também chamada de atopia, tem sintomas parecidos com outras dermatopatias

Doenças de pele são problemas de saúde que afligem muitos cães e estão entre as principais motivações das idas dos pets ao veterinário. Uma delas é a dermatite atópica, doença crônica que afeta animais geneticamente predispostos. A condição, que pode resultar até em infecções, é comumente confundida com outras doenças, o que atrapalha o seu diagnóstico e, consequentemente, o tratamento. “A dermatite atópica, ou simplesmente atopia, é uma doença alérgica que acomete os cães. Tem caráter imunomediado, isto é, o animal já nasce com a predisposição de se tornar um alérgico e ao entrar em contato com alérgenos ambientais e outras possíveis causas, ele desenvolve os sintomas”, explica a dermatóloga veterinária Regina Ramadinha, sócia-honorária da Sociedade Brasileira de Dermatologia Veterinária (SBDV), que atende nas clínicas Animália e Pet Care, de São Paulo.

A doença pode ser transmitida geneticamente, é crônica, não tem cura, mas se for bem controlada, com medicamentos e cuidados, não afeta a qualidade de vida do pet.

“Somente um veterinário com prática em dermatologia, fazendo os exames de pele necessários, pode […] diagnosticar a dermatite atópica”, aponta Regina Ramadinha – 18 www.caes-e-cia.com.br Foto: Arquivo pessoal

Sintomas e causas

De acordo com a médica-veterinária Mallize Gonçalves, pós-graduada em Dermatologia de animais domésticos pelo Instituto Qualittas São Paulo, o principal sintoma da doença é o prurido (acoceira), inicialmente sem lesão, mesmo que o animal comece a se coçar. “As regiões afetadas costumam ser o condutor auditivo dentro do ouvido, as axilas, a virilha, o abdome, a ponta das patas, a região perineal entre as coxas e as áreas flexurais”, aponta a veterinária. Com o passar do tempo, no entanto, sem o tratamento, a coceira se mantém e o pet acaba produzindo lesões autoinduzidas. Graças a essa reação, a doença pode levar a vermelhidão na pele, espessamento, descamação, perdas de pelo e até inflamações. “Na complicação do quadro, podemos ter o aparecimento de infecções oportunistas”, completa Mallize.

Apesar da dermatite atópica ser originada de uma condição genética que causa uma deficiência da barreira epidérmica da pele do cachorro, seus sintomas são originados quando o pet entra em contato com algo que desperta a reação alérgica. “A dermatite atópica é uma doença multifatorial. Animais suscetíveis tornam-se sensibilizados principalmente a alérgenos ambientais como fumaça, fungos caseiros, poeira e ácaros domiciliares, pólens, gramas, entre outros. Assim, desenvolvem os sinais da atopia. Animais atópicos também pioram as crises quando parasitados por pulgas e carrapatos. Ou seja, são muitas as causas para desencadear os sintomas. Infecções bacterianas ou fúngicas, por vezes secundárias à atopia, também agravam as crises de coceira dos cães”, conta Regina.

Por que o diagnóstico é difícil?

A dermatite atópica é difícil de ser diagnosticada, pois os seus sintomas são muito semelhantes a diversas outras doenças de pele e é comum haver confusão entre elas. “Os cães têm muitas alterações na pele causadas por infecções de bactérias ou fungos. Infestações por parasitas também originam vermelhidão, coceira e por vezes erupções, que são sintomas muito semelhantes aos da dermatite atópica. So- mente um médico-veterinário com prática em dermatologia, fazendo os exames de pele necessários, pode descartar as possíveis doenças bacterianas, fúngicas e parasitárias e daí sim diagnosticar a dermatite atópica”, informa Regina.

Além disso, não há um exame específico que determine a doença, seu diagnóstico é feito a partir de exclusões. Os exames feitos, por- tanto, servem para tentar identificar outras doenças que estejam causando doenças e vermelhidão na pele do pet. “Os [exames] mais importantes são: a citologia, que mostra se tem infecção por bactérias, fungos ou inflamação na lesão da pele; o tricograma, que pode revelar a presença de fungos, a qualidade dos pelos ou a presença de alguns ácaros; os raspados parasitológicos de pele, que auxiliam no diagnóstico das sarnas e alguns fungos; as culturas fúngicas e bacterianas, que mostram quais as espécies de fungos ou de bactérias estão nas lesões

da pele; e as biópsias de pele, que servem para estudar a pele mais profundamente e fornecer um diag- nóstico mais preciso quando os ci- tados anteriormente não forem sufi- cientes”, detalha Regina.

Segundo Mallize, para o diag- nóstico da dermatite atópica a ana- mnese, ou a conversa entre veteriná- rio e tutor, é fundamental. Através dela é possível montar o histórico do paciente, entender a ordem de surgimento dos sintomas, descobrir a que ele tem acesso, entre muitas outras informações que podem ser determinantes. “Com todos esses dados somados aos exames do pa- ciente é possível sugerir a atopia”, aponta. A médica-veterinária ainda revela que existem alguns exames complementares importantes a se- rem feitos mesmo se o diagnósti- co tiver sido dado, como o painel alérgico. Ao determinar quais são os fatores que causam reações alér- gicas, é possível definir como será o manejo do animal de estimação acometido pela dermatite e também seu tratamento.

“Na complicação do quadro, podemos ter o aparecimento de infecções oportunistas”, alerta Mallize Gonçalves – Foto: Arquivo pessoal

Tratamento individualizado

O tratamento para a dermatite atópica tem caráter único, é mui- to individualizado e dependerá de quais são os sintomas do cachorro, seja uma leve coceira ou uma infecção mais grave. “Se o animal chega para mim somente com sintomas da atopia em si, mas sem infecção, aí fazemos o controle dos sintomas, da coceira, em um quadro de tratamento tópico, que é justamente para cuidar dessa pele e melhorar o contato dos alérgenos com o paciente”, aponta Mallize, que ainda conta que a pele do pet que sofre de dermatite atópica apresenta uma disfunção nas ceramidas, moléculas que cuidam da proteção e da hidratação da região. “Portanto precisamos usar repositores de barreira cutânea e manter a hidratação da pele”, orienta. Regina acrescenta que nos tratamentos sistêmicos – ou seja, aqueles com uso de shampoos, cremes, sprays e loções, ou remédio oral ou injetável – algumas medicações podem ser usadas. “Podem ser receitados anti-histamínicos, corticosteroides, imunomoduladores, imunoterapia ou ainda anticorpos próprios para o controle do prurido. Cada um desses medicamentos tem indicações próprias para as deter- minadas fases da dermatite atópica”, explica.

Como a fase da doença vai definir o seu tratamento, a prioridade da intervenção vai depender de cada caso. Mallize revela que a maior parte dos animais que chegam à clínica com dermatite atópica já vêm com quadros de infecção oportunista. “E isso pode complicar ou piorar o caso do paciente. Normalmente são infecções por bactérias ou fungos. Se o paciente atópico chega para mim com uma infecção, eu preciso corrigi-la primeiro, melhorar a imunidade da pele, estabilizar o quadro, para só depois fazermos um tratamento específico”, conta. E a doença pode ainda atuar concomitantemente com outras doenças fúngicas e bacterianas, que precisam ser igualmente tratadas.

Qualidade de vida ao animal atópico

“O ponto mais importante é o controle do prurido, que é desconfortável tanto para os pets quanto para seus tutores. Para isso, a descoberta da causa da alergia e o controle dos fatores determinantes e agravantes é imprescindível”, afirma Regina. Por ser uma doença crônica, o cuidado com a dermatite atópica é constante e um acompanhamento veterinário é essencial para a manutenção da qualidade de vida do animal. “Muitas vezes, para que a atopia seja controlada e o animal pare de se coçar, é necessário manter a medicação por tempo prolongado e, em alguns casos, por toda a vida”, continua a veterinária.

Cuidados com o ambiente, como a higienização adequada, afastando o animal dos fatores que despertam as reações alérgicas, também são fundamentais. “Tem que ser um controle realizado através de estratégias. Dá para manter a qualidade de vida do pet atópico sim, desde que o tutor se comprometa com os cuidados”, conclui Mallize.


Por: Aline Guevara


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