Como tratar pets com necessidades especiais

06/03/2017 - 13:12

Veja as opções que animais com deficiência têm como suporte para ter mais qualidade de vida

Foto: Ademir Fheliz

Foto: Ademir Fheliz

Acontecem muitos os casos de abandono de cães e gatos com necessidades especiais ou problemas sérios de saúde. As alegações mais comuns são falta de tempo e de dinheiro para cuidar deles. Existe também quem, ao ver o animal numa crise que parece irreversível, opte pela eutanásia. Mas nem sempre é assim. Multiplicam-se os casos das pessoas que dão todo tratamento possível a seus pets em situação especial, independentemente das dificuldades enfrentadas. Parte desses animais pode ser vista circulando animadamente com cadeira de rodas ou prótese, por exemplo. O interessante é que os pets não deixam de ser felizes por causa das limitações. Interagem com naturalidade e entusiasmo e retribuem com amor toda a atenção recebida, conforme asseguram seus responsáveis. A seguir, veja as opções que animais com deficiência têm como suporte para ter mais qualidade de vida.
 
Sob medida
Para as situações de limitação motora sem indicação cirúrgica, o tratamento especializado conta com aparelhos conhecidos como órteses, próteses e cadeiras de rodas. “O ortopedista receita o tratamento adequado e o aparelho é desenvolvido por um especialista de acordo com a anatomia e as necessidades do animal”, ressalta Fernanda Vituri, da Flor de Lótus Acupuntura Veterinária.
“O projeto deve otimizar a resistência estrutural buscando o menor peso”, diz o cirurgião ortopedista Gustavo Padova Santoro, de São Paulo, especializado em artroscopia pela Universidade de Ghent, na Bélgica, e pela AOVet. Ele, que trabalha com próteses e órteses em cães, gatos e animais silvestres e faz avaliação cinética e cinemática de marcha, explica melhor as opções existentes:
Cadeira de rodas: Viabiliza a locomoção do pet paraplégico (com paralisia nos membros traseiros ou anteriores) ou com paraparesia não ambulatória (move os membros, mas não consegue andar). O animal ganha independência, pode passear e brincar sem os membros afetados rasparem no chão. Existe também uma configuração em que os membros paralisados tocam o solo, o que é útil para a prática de exercícios em casa.
Fernanda lembra que o uso da cadeira de rodas deve ser supervisionado para evitar acidentes. E Larissa Toyofuku, da Fisiocare Pet, unidades de Moema e Jardins, indica colocar o animal na cadeirinha de duas a quatro vezes por dia, por meia hora no máximo.
O gato Paçoca, de Simone Gatto, por exemplo, é paraplégico e usa o acessório desde os 8 meses de idade. Assim que o experimentou na loja, saiu correndo com ele. Conforme crescia, foram feitos ajustes. “Ele só usa a cadeirinha no parque ou em espaços abertos, pois em casa ela enrosca e também ele não consegue se deitar”, diz Simone.
Próteses: Essa é a opção mais cara das três, utilizada de diferentes maneiras. As internas substituem as articulações ou partes ósseas comprometidas, tais como as de joelho e do quadril. As externas complementam partes externas como bicos. E as de membros amputados mimetizam a função e tamanho deles. Os modelos mais modernos de prótese são produzidos com impressoras 3D (veja quadro). “Poucas opções nacionais têm a qualidade necessária”, adverte Fernanda.
Na fase de adaptação do animal à prótese, são feitas sessões de fisioterapia para a reeducação e reaprendizado do caminhar. Scooby usa uma prótese numa das duas pernas traseiras amputadas. Demorou cerca de um ano para ele se acostumar e dominar o uso. “Levanta-se sozinho e caminha com a coluna corretamente posicionada”, comenta Priscila Yanai, de São Paulo, dona de Scooby, cujas patas traseiras foram amputadas após atropelamento. “Sem prótese ele também se movimenta, mas sobrecarrega os membros torácicos, o que não é recomendável”, explica. A prótese de Scooby custou em torno de 2.500 reais.
Órteses: Servem para auxiliar na movimentação de membros ou articulações comprometidas. Existem de três tipos: não rígidas, semirrígidas e rígidas. As não rígidas têm função restrita na medicina veterinária. São usadas em entorses e subluxações por pouco tempo, até o animal poder receber tratamento definitivo. As semirrígidas servem para animais em processo de reabilitação e que não permanecerão por longos períodos com o aparelho. E as rígidas são utilizadas em tratamentos contínuos de problemas ortopédicos crônicos ou quando o animal não pode ser operado ou para tentar evitar a progressão de deformidade. São feitas sob medida, respeitando todas as particularidades anatômicas do animal. “A adaptação é feita com exercícios de reforço positivo e com fisioterapia”, menciona Fernanda.
 
Próteses via impressora 3D

Animal Avengers/Zoológico de Brasília
TUCANO ZAZU COM PRÓTESE: ANTES DA CIRURGIA (À DIR.) PRECISAVA SER ALIMENTADO DE FORMA ARTIFICIAL
 
Na internet, há muitos casos de cães, aves e outros animais beneficiados com próteses fabricadas por meio de impressoras 3D. É o caso do gato Cyrano, de 9 anos, operado de câncer de ossos na Universidade da Califórnia, dos Estados Unidos. Outras histórias foram noticiadas nas edições 415 e 430 da Cães & Cia.
No Brasil, um grupo de voluntários da Animal Avengers já fez dez próteses veterinárias em impressora 3D para animais silvestres com mutilações, resgatados da Natureza ou criados em cativeiro. Entre eles estão tartarugas e araras. O tucano Zazu, das fotos, é um deles. Depois de fraturar o bico superior não conseguia mais comer por conta própria. Graças à prótese impressa em 3D ele agora se alimenta normalmente.
O grupo vem trabalhando na tentativa de baixar o custo das próteses. “Usamos materiais como ácido polilático (plástico de fontes vegetais) e insumos odontológicos, como resinas”, explica Paulo Eduardo Miamoto Dias, professor de Odontologia na Faculdade São Leopoldo Mandic. “Nossa equipe está testando a tecnologia de sinterização, que consiste na fusão de pó em alta temperatura para obter elevada resistência”, antecipa.
“A tecnologia da impressão em 3D é um ótimo suporte para as soluções de órteses e próteses, mas ainda é cara demais para  uso corriqueiro com pets”, opina o cirurgião ortopedista Gustavo Padova Santoro, de São Paulo. “O equipamento de alta resolução e o processo tecnológico para proporcionar grande resistência ao material impresso são caros.” Mas Gustavo é otimista: “Acredito que, em breve, será viável que todo o processo de desenvolvimento das órteses e próteses ocorra de forma digital.” Saiba mais: www.govetscursos.com/proteses-3d
 
Leia reportagem com muito mais dicas sobre como cuidar de animais deficientes na Cães & Cia de março, de número 453
https://www.editoratopco.com.br/loja/caes-e-cia/categoria