Mastiff Tibetano: forte protetor

Macho da Rússia, de cor azul e castanho (Blue and Tan): mesmo na Sibéria, onde o frio e a neve são intensos, esses cães se sentem bem – Foto: Arquivo do propr. do cão (canil Best Of Roys)/ Cão: Mazai

Este fascinante cão, primitivo e milenar, é também chamado de Do-Khyi  e atua na guarda e companhia 

Muito antiga, a origem desta raça remonta a 4 mil anos atrás. Ela descende do Lobo-do-Himalaia, fato hoje comprovado por exames mitocondriais. “Por conta dessa descendência, o Mastiff Tibetano é capaz de respirar em grandes altitudes e lidar muito bem com elas, pois o Lobo-do-Himalaia realiza suas atividades a 5 mil metros de altura”, conta Fabiana Fonseca, do canil Solar Wonderful, de Balneário Camboriú, SC. Acredita-se também que o Mastiff Tibetano seja o antepassado mais antigo de todos os molossos, cães de físico massudo e cabeça avantajada, caso do Rottweiler, Mastiff Inglês e Dogue Alemão. “O fato de ter originado praticamente todas as raças molossoides que existem foi um dos fatores que mais me encantaram, principalmente porque eu já era criadora de Dogue Alemão”, conta Fabiana.

O Mastiff Tibetano é nativo do extremo Oriente, mais especificamente do Tibete, na China, onde exerceu, desde os princípios da sua história, a função de guardião dos monastérios. “A raça foi desenvolvida para ser um cão de guarda perfeito dos monastérios tibetanos, nas altas altitudes do Himalaia”, comenta Yulia Orlova, do canil Best Of Roys, da Rússia. “Por um monge e seu mosteiro, um Mastiff Tibetano abre mão da sua majestosa vida”, diz Fabiana. A raça também trabalhou por séculos na proteção de rebanhos, afastando predadores naturais (lobos e felinos de grande porte) e pessoas que roubavam gado de pastores nômades. “Ela se ajustou para acompanhar o Homem de antigamente: sua própria morfologia foi se adaptando às funções que exerceu e ao terreno onde viveu, e pode-se dizer que, morfologicamente, o Mastiff Tibetano possui três ou quatro tipos distintos na sua atual existência”, explica a criadora.

No século XIX, exemplares da raça começaram a ser levados para a Europa, como um macho enviado à Rainha Vitória pelo Lorde Hardinge, então vice-rei da Índia, em 1847. Na década de 1880, Edward VII, Príncipe de Gales, trouxe dois Tibetanos para a Inglaterra. Uma das primeiras ninhadas registradas nasceu em 1898, no Zoológico de Berlim. A Federação Cinológica Internacional (FCI) reconheceu o Mastiff Tibetano em 1961.

Raridade

O Mastiff Tibetano é raro no Brasil, mas não só aqui: há países com cinofilias tradicionais, como a Noruega e a Dinamarca, que, em 2019, sequer registraram exemplares da raça, que costuma ser considerada a mais cara do planeta. “Ele é cobiçado no mundo todo”, destaca Fabiana. “Apesar de não ser tão difundido como outros cães para guarda de território, o que está relacionado a seu alto custo, o Mastiff Tibetano está mais popular atualmente que há 10 anos”, afirma Margarita Mikhailova, do canil Vandzario, na Rússia. “Sua raridade resulta também do próprio tamanho: a manutenção de um cão grande como o Mastiff Tibetano não é das mais fáceis, e os criadores vendem seus exemplares apenas para quem disponha de ambientes espaçosos”, diz Yulia. “No caso dele, quanto maior a área, melhor”, confirma Fabiana. 

No mundo todo, o país que mais registrou exemplares da raça em 2019 foi a Rússia – 2.565 filhotes receberam pedigrees da Russian Kinological Federation. “As pessoas daqui amam essa raça, por sua aparência peculiar, com juba de leão e ar orgulhoso, entre outras características”, diz Margarita. A Rússia também se destaca pela qualidade da criação. “Os cães russos são exportados para todo o mundo”, diz Fabiana, que adquiriu seu primeiro casal em 2016 e teve sua primeira ninhada em 2020. “Hoje possuo, entre matrizes e padreadores, dez adultos e mais cinco filhotes das ninhadas geradas, todas em 2020”, aponta Fabiana. 

Cuidados diferenciados

 As fêmeas da raça só estão maduras após os 3 anos – os machos, às vezes, apenas aos 4 – e todas elas entram no cio apenas uma vez ao ano (em vez de duas, como a maioria das cadelas) e na mesma época, no outono, de modo que todos os filhotes sempre nasçam no inverno e que o período de acasalamento seja absolutamente sincrônico e estável. “Isso é mágico: o parto coincide com a época de encerramento das atividades das tribos nômades, de maneira que, quando estas levantavam acampamento, na primavera, os filhotes já podiam andar”, diz Fabiana. “O ciclo reprodutivo das fêmeas é vinculado à redução de claridade dos dias e das temperaturas, típicas de locais com inverno definido, e elas funcionam como um relógio, de maneira que, no outono, pelos novos começam a vir, maiores e mais grossos, e as cadelas entram no cio”, explica a criadora. 

Fabiana comenta: “o clima tem interferência direta na saúde desses cães e, junto da alimentação de qualidade, é o aspecto mais importante para mantê-la e o principal cuidado para respeitar o metabolismo e as características da raça”. Ela esclarece que esses cães aguentam o verão quente – suportam, aliás, de -30ºC a +40ºC –, porém, nos dias mais calorosos, requerem cuidados como acesso a ventiladores e água para banho. Quanto ao último item, é importante tomar o cuidado de não molhar a raiz do pelo, para não estragá-lo – “exceto se tiver acontecido alguma situação excepcional, como depois de um parto ou outra ocasião em que há envolvimento com sangue”, pondera Fabiana.

De acordo com o padrão FCI, no mínimo, os machos da raça têm 66 cm de altura no ponto mais alto do dorso, e, as fêmeas, 61 cm. “As fêmeas costumam pesar de 55 a 70 kg, e os machos, de 60 a 80 kg”, diz Fabiana. Como todo cão de tamanho grande, é importante proporcionar ao Mastiff Tibetano alimentação balanceada e piso não escorregadio. Sua pelagem abundante (são várias camadas de subpelo até chegar à pele) deve passar por escovação. “Um dos cuidados mais importantes na criação e manutenção da raça refere-se à pelagem, que é longa e grossa: ela deve ser escovada todo dia, o que leva muito tempo”, afirma Yulia. “As principais trocas de pelo acontecem duas vezes por ano – antes da chegada do outono e da entrada da primavera – e, para abreviá-las, a pelagem deve ser escovada de maneira mais intensa nesses períodos”, orienta Fabiana.

Leal à família

Além de guardião, o Mastiff Tibetano atua como companheiro do Homem. “Ele tem temperamento muito calmo e equilibrado”, destaca Yulia. “É um doce com as pessoas do lar e não esquece um familiar”, diz Fabiana. Ela destaca também que esses cães se dão muito bem em matilha e com os animais da residência. “Têm habilidades de caça, mas nunca atacam seu rebanho: sua capacidade de discernimento é incrível”, diz. “Por exemplo, na minha casa eles convivem muito bem com seis gatos, porém pegam ou expulsam algum que venha de fora”, completa a criadora. 

Fabiana considera a raça como uma das mais independentes. “Faz o que quer e quando quer”, ilustra a criadora. Ou seja, o Mastiff Tibetano frequentemente toma decisões sem a participação do Homem, traço herdado de seus ancestrais. Ele pode até ser treinado, pois, graças a sua inteligência e ótima memória, observa e assimila a rotina. Mas não espere que execute os comandos de maneira perfeita, como um cão pastor. “A raça é esperta, mas principalmente independente: possui pensamento próprio e exige que seu dono seja um líder e entenda a maneira de pensar dos cães”, diz Yulia.

Mas a função mais importante da raça é proteger o território onde vive. “O tamanho dela aterroriza muitas pessoas”, afirma Margarita. “É desconfiada com visitas e, por isso, não deve ir para casas com grande rotatividade de pessoas: o ideal são famílias pequenas e com rotina bem estabelecida”, avisa Fabiana. Ágil, forte e muito feroz com intrusos (realmente não tolera estranhos, a ponto de considerá-los inimigos em potencial), a raça também tem faro, audição e visão bem desenvolvidos, o que lhe permite detectar antecipadamente uma possível ameaça. “É notória a capacidade do Mastiff Tibetano de repelir predadores ou invasores em uma luta, e ele percebe movimentos à distância que outras raças não notam”, conta Fabiana.

Trata-se de um cão noturno: devido a sua função relacionada à segurança, à noite, ele anda por todo o terreno e dificilmente dorme. “O Mastiff Tibetano guarda seu rebanho de pessoas e animais com um latido forte e profundo, que só ele possui”, afirma Fabiana. “É realmente exclusivo, gutural e grave e faz com que pessoas e animais se desviem do caminho: essa raça define claramente os limites de seu território e não permite a entrada de desconhecidos”, diz Yulia.

O maior nível de atividade à noite, a periodicidade do cio e o amadurecimento sexual tardio são bem típicos dos lobos e, muito provavelmente, o Mastiff Tibetano herdou essas características deles.


Por:

Fabio Bense

Agradecimentos:

FABIANA FONSECA, canil Solar Wonderful – (47) 3366-6600, www.canilwonderful.com.br, Instagram: canilsolarwonderful
MARGARITA MIKHAILOVA, canil Vandzario – www.facebook.com/safr.margo
YULIA OROLOVA, Best of Roys Kennel – www.facebook.com/yulia.orlova.35

{PAYWALL_FIM}


Clique aqui e adquira já a edição 491 da Cães & Cia!