Cães pelados: Saiba mais sobre o Cão de Crista e os Pelados Mexicano e Peruano

Categoria: Raças

Autor(a): Samia Malas | Colaborador(es): Jornalismo Top.Co. | Cidade: Campinas | 06/02/2018 - 11:48

Estes cães, diferentes de todos os demais, convivem com o Homem há milhares de anos e se destacam pelo companheirismo e por detalhes como ficar bronzeados e gostar de usar roupa

Canil Lapinus

Canil Lapinus

 Indiscutivelmente peculiares na aparência, o Cão de Crista Chinês, o Pelado Mexicano e o Pelado Peruano – únicas raças de pele exposta reconhecidas pela Federação Cinológica Internacional (FCI) – têm várias características físicas e comportamentais em comum. É o que vamos conhecer nesta matéria.
 

Desde antes de Cristo

Acredita-se que o Cão de Crista Chinês descenda de grandes cães pelados que chegaram à China vindos da África, trazidos por navegadores. Sabe-se que ancestrais desse cão trabalharam como guardiões das casas do tesouro da dinastia Han, que governou a China entre 206 a.C e 220 d.C. Naquela mesma época, exemplares de porte maior foram usados para caçar. Com o passar do tempo, porém, somente permaneceram os de tamanho menor.

No outro lado do mundo, no continente americano, as notícias sobre cães com a pele exposta são mais recentes, mas antecedem a chegada dos descobridores. O Pelado Mexicano era chamado de Xoloitzcuintli pelos astecas, que significa “cão de Deus” (itzcuintli = cão e Xolotl = Deus). Sua carne, considerada iguaria pelos indígenas mexicanos, era consumida em cerimônias especiais. A missão desse cão era guiar a alma do morto até o destino eterno. Já o Pelado Peruano frequentou o Império Inca e, antes disso, diferentes civilizações pré-Incas, conforme revelam cerâmicas antigas.

Depois de terem sido resgatados da quase extinção por entusiastas do papel que representam para a cultura de seus povos, o Pelado Mexicano e o Peruano são tidos como tesouros de seus países e o Peruano foi até declarado patrimônio nacional, em 2001.

Coisas de pelado

As decorrências de ter a pele exposta são parecidas para as três raças. Para começar, é comum que numa mesma ninhada nasçam pelados e peludos. Como o gene da ausência de pelos é dominante, o filhote que vem ao mundo com ao menos um gene da ausência de pelos é pelado. Para nascer peludo, o cão precisa portar exclusivamente genes da presença de pelos. 

Os exemplares peludos desempenham papel importante na criação. São usados para aumentar a diversidade genética dos pelados e para que o plantel deles seja mais saudável.

A presença parcial de pelos é até desejada no Cão de Crista Chinês, diferentemente do Pelado Mexicano e do Peruano, nos quais é valorizada a ausência total de pelos, apesar de muitas vezes pelos esparsos insistirem em aparecer na cabeça, nos pés e na cauda, com casos até de pequenas crinas sobre a cabeça.

Nas três raças, a pele é lisa e fina, quentinha ao toque, já que não há pelos para dissipar o calor corporal. Sua cor pode ser preta, marrom, vermelha ou amarela, em tom claro ou escuro, com ou sem marcações espalhadas pelo corpo.

Quando está frio, os pelados apreciam usar roupa e gostam de ficar em lugares quentes, entre eles o colo do dono, prestando um serviço nota 10 de bolsa térmica (nos pelados Peruano e Mexicano há três variedades de tamanho, sendo que os de maior porte, apesar de gostarem de aconchego, são grandes demais para ficar no colo).

Como acontece com os humanos, os cães pelados podem apresentar cravos e espinhas na pele e os raios solares os deixam bronzeados ou, em caso de exposição excessiva, com queimaduras, podendo ate pegar câncer de pele. A maior sensibilidade acontece com as cores mais claras. Nesses, quando ficam sob o sol por longo período, pode ser aplicado filtro solar indicado por veterinário, pois alguns componentes desses produtos de uso humano são prejudiciais para os cães. 

Geneticamente, a ausência de pelos está intimamente ligada à ausência de dentes. Por isso, os padrões do Pelado Mexicano e do Peruano preveem a não penalização por irregularidades na dentição. No padrão do Cão de Crista não há essa menção, mas, mesmo assim, falhas desse tipo não são penalizadas.


Canil Lapinus

 

Cão de Crista Chinês

Ele já foi bem mais raro. Basta ver que, de 2008 a 2013, a quantidade de Cães de Crista Chinês registrados na Confederação Brasileira de Cinofilia saltou de 76 para 239.

Como o próprio nome da raça indica, na versão com pele exposta não há expectativa de que o cão seja totalmente pelado. Ao contrário, é desejada uma crista “longa e fluida”, que ocupe desde a cabeça até a parte de baixo do pescoço. Também há expectativa de pelos formando “meias” que cubram apenas os dedos das patas, indo, no máximo, até onde eles começam (topo do metacarpo). Na extremidade da cauda, mais pelos são previstos, dessa vez criando uma “pluma longa e flutuante”. Fora isso, o restante do corpo deve ser totalmente pelado, apesar de existir a variedade hairy (peluda), com crina mais longa e “meias” mais cheias, muitas vezes com tufos de pelos distribuídos pelo corpo, os quais podem ser facilmente retirados por meio de tosa.
 

A versão inteiramente peluda é chamada de powder puff (pufe de pó de arroz) e é toda coberta por um “véu macio de pelos longos” e subpelo. 

Tanto nos “pelados” quanto nos peludos, há dois possíveis tipos físicos. O preferido é o mais encorpado, o cobby type, como são os Cães de Crista que ilustram esta matéria. Se o exemplar for mais esbelto, com ossatura fina, será da variedade deer type.
 

Animação e tranquilidade

De porte pequeno (com 23 a 33 cm de altura), dócil e amigável, a raça aprecia a companhia humana, gosta de colo e quer sempre agradar. “É um cão alegre e animado, vivaz, que aprecia correr e brincar”, resume Nateusca Fernandes, do Eashik Kennel. “Chega até a ser insistente nos convites para brincar”, reforça Paloma Pegorer, do Canil Lapinus, de São Roque, SP. 
 

O modo de agir da raça no dia a dia também ajuda a passar energias positivas. “Os meus, ao pedir comida, ficam sobre as patas de traz e balançam as patinhas da frente”, exemplifica Paloma. “Acho isso fofo demais.”

Os momentos de atividade são intercalados por períodos de calma total, quando esse cão quer mais é ficar no conforto, relaxando. “A minha fêmea de Cão de Crista se encaixa muito bem no meu estilo de vida, pois se mantém supercalma tanto quando estou ocupado com o meu trabalho em casa, trabalhando minhas fotos, quanto durante os nossos passeios juntos”, declara o fotógrafo Eric Gonçalves, sobre Regina, de 1 ano e dois meses, que adquiriu de Nateusca.
 

Expor, desde cedo, o Cão de Crista a diferentes ambientes, pessoas e animais faz desabrochar toda a sua sociabilidade, evitando que se torne medroso ou pouco afeito a aceitar novidades. “Todos que chegam em casa são recebidos com festa por Regina, que brinca com os desconhecidos e até fica no colo deles”, relata Gonçalves. Regina também é muito ligada a Nigel, um dos dois gatos SRD da casa. “Parecem duas crianças brincando de correr atrás do outro.”
 

O grau de atividade do Cão de Crista Chinês é avaliado como de médio a alto. “Por ser pequeno, nem é preciso exercitá-lo com caminhadas se houver um cão ou gato com o qual possa brincar”, afirma Paloma. “Caso contrário, recomendo levá-lo para andar durante 30 minutos por dia.” 

Como a raça aprende com facilidade e é ágil e veloz, pode se dar bem também na prática de esportes caninos. Vigilante atento, o Cão de Crista late quando ouve ou vê algo fora do normal, mas não costuma atacar. 


Arquivo Bomberbull Kennel

 

Pelado Peruano

Ao descobrir o Pelado Peruano, o criador gaúcho de Pit Bulls Samir Brito de Oliveira, do Bomberbull Kennel, de Porto Alegre, ficou impressionado. “Constatei que faço parte do grupo de pessoas que se apaixonam por esse cão no primeiro contato visual, enquanto outras o acham bastante estranho”, comenta ele. 

Assim veio a motivação para, em 2006, Oliveira começar a primeira criação oficial da raça no País, com a importação de um casal do Peru de porte médio, o macho Eulógio e a fêmea Huanca. No ano seguinte, chegaram mais duas fêmeas de porte médio, Mirela e Miguela, também peruanas. 
 

A população mundial do Pelado Peruano é ainda pequena. Uma estimativa feita pelo criador holandês Jeep van Zanten, do canil Huaca Viringo (www.huacaviringo.com), que há cinco anos cadastra cada ninhada de Pelado Peruano que encontra na internet, calcula em cerca de 3.100 exemplares o plantel da raça espalhado pelo planeta.
 

Em comparação com as outras duas raças com pele exposta abordadas nesta matéria, o Pelado Peruano é a única em que a variedade peluda é ignorada pelo padrão da raça. Mesmo assim, é utilizada em acasalamentos pelos criadores (em cada quatro filhotes, há probabilidade de um nascer peludo). 

São várias as semelhanças entre os Pelados Peruano e Mexicano. Os padrões de ambos aceitam alguns pelos ralos sobre a cabeça, nos pés e na ponta da cauda, sendo que o do Peruano inclui também pelos esparsos sobre o dorso. Nas duas raças, a menor altura permitida é de 25 cm. Já a maior, é de 65 cm no Peruano e de 60 cm no Mexicano.
 

O trabalho estatístico de Van Zanten permite ter noção de como os Pelados Peruanos se distribuem de acordo com o tamanho. “O mais disseminado é o médio (altura de 40 a 50 cm), com cerca de 1.500 indivíduos no mundo”, calcula Van Zanten. “Em seguida, vem o grande (de 50 a 65 cm), com 1.000 exemplares, e, finalmente, o pequeno (de 25 a 40 cm), com 600 exemplares.”

 

Comportamento

“As características comportamentais descritas nesta matéria para o Pelado Mexicano valem também para o Pelado Peruano”, comenta Oliveira. “Vale destacar que o Pelado Peruano se sociabiliza muito bem com outros cães, mas se coloca sempre como o cão dominante, independentemente da estatura dos outros cães.” Ele ressalta a afetuosidade do Pelado Peruano a ponto de sempre tentar ficar junto do dono e de cobrar dele um pouco de carinho. “Ao intercalar os momentos de atividade, em que é brincalhão e se move com agilidade, com outros de total tranquilidade, o Pelado Peruano gosta de descansar embaixo de cobertas e de ficar no colo”, diz Oliveira.
 

A necessidade de exercício é moderada. “Quando o Pelado Peruano tem acesso ao jardim, a energia que consome na área externa costuma ser suficiente, ainda mais se ele contar com outro cão para interagir”, diz Oliveira. Ele lembra que é preciso ter em mente que a raça usa as patas alongadas para cavar e que é exímia escaladora e saltadora. “Para exemplares de porte médio mantidos em ambiente interno, recomendo caminhadas de meia hora, de quatro a cinco vezes por semana”, acrescenta.
 

Desconfiar de estranhos e ter bom desempenho para dar alarme são outros traços destacados por Oliveira. “Extremamente atento e alerta a qualquer movimento, o Pelado Peruano late bastante para estranhos, mas, em vez de atacá-los, prefere se manter afastado, na defensiva”, descreve ele.


 

Canil Syrius Star

 

Pelado Mexicano

 

No Brasil, há notícia oficial de apenas um único exemplar de Xoloitzcuintli, ou Xolo, como o Pelado Mexicano é também carinhosamente chamado. Trata-se de Cuauhtemoc Avalos, macho da variedade sem pelo e de maior tamanho (o “standard”), importado do México em 2012 pelo canil Syrius Star, de Marcelo Fonseca, que vive em Lauro de Freitas, na Bahia. “Planejo trazer uma fêmea com as mesmas características no segundo semestre de 2014, em sociedade com o criador Maurício Penna, do Canil Murici”, conta Fonseca.
 

Características

Na versão “despida” do Pelado Mexicano, o padrão estabelece como ideal a ausência total de pelos. Mas são aceitos alguns pelos duros, curtos e densos na face e na nuca, desde que não passem de 2,5 cm, nem formem um topete longo e macio. São aceitos também pelos ásperos nas patas e no final da cauda. A pele é lisa e muito sensível ao toque. A variedade peluda é aceita pelo padrão com o nome de “com pelo”. Seus pelos podem ser de qualquer tamanho e escassear no ventre e na parte interna dos membros posteriores.

 

Quanto ao porte da raça, existem três possibilidades. O maior é o “standard”, com altura quase igual à do Boxer (tem de 46 a 60 centímetros na cernelha, com mais 2 centímetros de tolerância se o exemplar for de ótima qualidade.). Essa é a variedade que melhor combina com fazer companhia e, ao mesmo tempo, intimidar estranhos. “É um cão de alarme que avisa latindo e que costuma manter os intrusos afastados por causar receio pelo porte, pela expressão exótica e pela atitude de proteção”, comenta Fonseca.
 

No outro extremo, está a menor variedade do Pelado Mexicano. É a “miniatura”, com 25 a 35 cm de altura, tamanho  semelhante ao do Cão de Crista Chinês, o que mais se presta para a vida em apartamento e para o cão ficar no colo. Existe, ainda, a variedade de tamanho “intermediário”, que é suficientemente grande para resistir às investidas de crianças pequenas e suficientemente leve para ser levantada e colocada confortavelmente num sofá.
 

Temperamento

Em todas as versões, a raça tem características típicas dos cães de tipo primitivo: muita inteligência, energia intensa, grande curiosidade, fortes instintos de caça e social, reserva com estranhos e intensa ligação com quem tem mais contato.

O Pelado Mexicano filhote costuma ser extremamente enérgico, barulhento e roedor. Com calma, persistência e amor, pode-se socializá-lo e fazê-lo aprender obediência básica. “Se for educado corretamente, costuma se tornar estável e bem-comportado na fase da maturidade, que acontece depois dos 2 anos de idade, apesar de o físico já estar crescido com 1 ano”, avisa Fonseca.
 

Ao dar acesso ao jardim, é preciso estar ciente de que o Pelado Mexicano, assim como os terriers, adora cavar, o que faz com habilidade. Por ser esperto, gostar de perseguir e pela facilidade com que escala e pula cercas, é preciso que a propriedade tenha uma estrutura de contenção eficiente, para que ele não consiga escapar.

"O Pelado Mexicano, mesmo socializado, só aceita a proximidade e o carinho das pessoas com quem tem contato intenso”, diz Fonseca. “Isso significa que, com visitas, ele se mantém reservado.”
 

Por gostar de bastante interação, é melhor que não seja o único cão da casa e que se sinta parte da família. “Para tanto, o ideal é que tenha acesso ao interior da moradia, independentemente do tamanho”, recomenda Fonseca. Se onde ele vive não houver espaço suficiente ou motivação para queimar energia, será preciso exercitá-lo. “Para a variedade standard, que é a mais ativa das três, a recomendação é fazer um passeio diário de 30 minutos, complementado por duas sessões de brincadeiras dentro da propriedade, de 20 a 30 minutos cada uma, para fazê-lo correr bastante, por ser essa uma atividade muito apreciada pela raça”, sugere Fonseca.