Peixe-Papagaio, híbrido curioso e dócil

Categoria: Aquarismo

Autor(a): RODRIGO BECK BARRETO | Colaborador(es): Jornalismo TopCo | Cidade: Campinas | 16/08/2019 - 14:15

Resultado do cruzamento entre espécies diferentes, esse peixe muito presente em aquários não existe na Natureza e causa polêmicas

Gerjho Dee - Cichlids.com  Vermelho-alaranjado típico

Gerjho Dee - Cichlids.com Vermelho-alaranjado típico

Na Natureza, o cruzamento entre diferentes variedades, espécies ou gêneros (categoria intermediaria entre família e espécie), responsável pelos chamados híbridos, só́ ocorre eventualmente. Foi assim que, a partir de cruzamentos espontâneos entre espécies de cicloides, várias novas espécies surgiram no lago Malawi, na África, conforme ficou comprovado por análises de DNA. A esse fenômeno é dado o nome de especiação por hibridação.

Bem mais comuns são os híbridos produzidos pelo Homem, com o objetivo de ressaltar características, como é feito com a mescla de burro com égua para se obter mulas. Nesse caso, o animal gerado é estéril, fato que acontece sempre que a quantidade de cromossomos do pai difere da quantidade de cromossomos da mãe.
A hibridação é bastante adotada na piscicultura voltada à alimentação humana. Como exemplo, podemos citar o Cachapinta, resultante da mescla de fêmea Surubim Cachara (Pseudoplatystoma fasciatum) com macho Surubim Pintado (Pseudoplatystoma corruscans), ou Pinchara, se a mãe for Pintado e o pai, Cachara. Por ser cruzamento entre espécies diferentes, a técnica é chamada de hibridação interespecífica. No caso do Tambacu, resultado do cruzamento do Tambaqui (Colossoma ma- cropomum) com o Pacu (Piaractus mesopota- micus), os peixes são de gêneros diferentes e a hibridação recebe o nome de intergenérica.


Fantom-xp

Híbridos e aquário

Muitos peixes de aquário são híbridos. A começar pelos Kinguios (Ca- rassius auratus), cujos diferentes formatos, caudas e cores vêm do cruzamento de variedades diferentes de uma mesma espécie, técnica também conhecida como hibridação interespecífica, sempre que produz descendentes férteis.

Na tradicional família de peixes de aquário formada pelos Poecilídeos, quase todos os membros são híbridos. Por serem férteis, as novas espécies geradas têm ampla interação entre elas, viabilizando uma infinidade de cores e formas. Nesse grupo estão as Molinésias (resultantes do cruzamento entre as espécies Poecilia sphenops, Poecilia latipinna e Poecilia velifera), os Platys (mistura dos Xiphophorus maculatus e variatus) e os Espadas (descendentes dos Xiphophorus maculatus e hellerii).

Peixe-Papagaio

Entre os híbridos encontra- se o Peixe-Papagaio, também chamado de Ciclídeo-Papagaio ou Papagaio- Sangue (Blood Parrot, em inglês). De comportamento curioso e dócil, do tipo que interage bastante com o dono e que pode aprender a comer na mão, a espécie surgiu na década de 80 cercada de mistério. Algum tempo depois veio o esclarecimento. Tratava-se do resultado de cruzamento controlado em laboratório de Taiwan, na China, de duas espécies de Ciclíde- os americanos: o Cichlasoma citrinellum macho com o Cichlasoma synspilum fêmea.

Polêmica

De aparência bem característica, o Peixe- Papagaio tem protuberâncias que lembram bochechas, nadadeiras mal formadas, coluna vertebral torta e boca proporcionalmente pequena e vertical, com pouca mobilidade, detalhes que levam grupos de pessoas a se posicionarem contra essa criação, a partir do ponto de vista de que essas deformidades devem causar sofrimento ao peixe e dificuldade de ingestão de alimentos, o que se torna injustificável diante da profusão de belas espécies já́ disponíveis. De cor parda quando filhote, o Peixe-Papagaio fica vermelho-alaranjado intenso com o crescimento. Pode também ser inteiramente amarelo ou malhado de branco, de vermelho ou de preto.

Chrisplosion - Monster Fish Keepers

Cuidados

Pelo grande porte do Peixe-Papagaio adulto (chega a 25 cm), recomenda-se que o aquário tenha volume de 100 litros para abrigar um par. Peixes de outras espécies podem ser colocados juntos (nesse caso, aumenta-se o volume do aquário na proporção de 1 litro para cada centímetro de peixe adulto). Só́ não convém colocar peixes muito pequenos, já́ que o Peixe-Papagaio é um pouco agressivo nos períodos de acasalamento ou em espaço pequeno demais. Tocas de pedras são bem-vindas para proporcionar eventual refúgio, mas, como o Peixe-Papagaio costuma mexer no substrato de fundo, é preciso estar preparado para a “re-decoração” periódica do aquário.

Para comer, o Peixe-Papagaio prefere grânulos que afundam lentamente, os quais costuma capturar no meio da água, já́ que não é muito ágil para alcançar a superfícies. Ração de boa qualidade é bem aceita, especialmente se for específica para Ciclídeos. Quanto à água, esse híbrido é bastante tolerante a diferentes pHs. Mesmo assim, o ideal é manter o pH próximo a neutro, entre 6,8 e 7,2, e a temperatura entre 25 e 27oC.

 

Rodrigo Beck Barreto é engenheiro-agrônomo especializado em aquarismo e peixes ornamentais (digobeck@ hotmail.com)