O que o seu cão te diria se pudesse?

Imagem de Gundula Vogel por Pixabay

Veja se você está agindo da forma mais adequada para o seu cão em algumas situações comuns do dia a dia 

A domesticação canina teve início há quase 40 milhões de anos. Com tanto tempo convivendo juntos, cão e Homem aprenderam a se comunicar de diversas maneiras. A Ciência já estudou e explicou muitas delas, como o fato de cães conseguirem perceber quando há algo errado com sua família, como quando o tutor fica doente. Pela mudança de tom de voz do tutor e pelo olfato, os pets percebem que há algo errado. Mudanças de humor do tutor também são perceptíveis aos cães, bem como sinais que expressamos com o nosso corpo. Mas e nós? O quanto sabemos sobre o que os cães querem e necessitam? A seguir, a comportamentalista canina Laís Cauner nos ajuda a desvendar o que os cães (se pudessem) diriam a seus tutores em algumas situações corriqueiras do dia a dia. 

  1. Não faça carinho enquanto eu me alimento

Geralmente, são as crianças que gostam de perturbar os pets nas horas mais inoportunas. Afinal, pets e crianças na mesma casa podem ser a felicidade de uma família, mas é preciso ter alguns cuidados extras para que o cão consiga ter seus momentos de relaxamento. 

A hora da alimentação canina, prática inevitável e diária, é um dos momentos em que os pais precisam orientar as crianças pequenas a não fazer contato invasivo com os pets. É imprescindível que, nessa hora, o animal tenha sua individualidade preservada, ou seja, seu momento de alimentação pacífica e com pouca distração ou estresse. Isso porque alguns cães filhotes e adultos podem reivindicar instintivamente um recurso específico – como o alimento – e protegê-lo. Quando há cães e crianças em casa, o trabalho da família é dobrado para ensinar o obediência básica, como sentar, ficar, deitar, soltar e tolerar aproximações. Uma dica é educar a criança para que ela interaja com o cão buscando o que chamamos de “troca obediente”. Após o cão sentar, ela pode acariciá-lo, por exemplo.

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Cabe aos adultos aplicar a educação canina e, por exemplo, aproveitar o treinamento na hora da refeição do novo cachorro para ensiná-lo a não morder as crianças e desenvolver o autocontrole. Filhotes são muitos dispostos a essa atividade educativa e, com um membro da família ensinando, é mais provável que o cachorro reproduza os comportamentos com os demais moradores da casa. Dizer às crianças para não incomodar o animal falando alto ou o distraindo com objetos enquanto ele se alimenta irá evitar que o filhote interaja sempre de forma agitada. Essa orientação também tende a evitar aquelas mordidinhas indesejadas. Ensinar essas regras aos filhos é promover o bem-estar do animal!

2. Respeite meus limites

Outro comportamento que sempre chama a atenção em meus atendimentos de rotina é o fato de que muitas crianças costumam subir no cachorro ou apertá-lo. Se ele pudesse falar, certamente pediria para que elas não fizessem isso em nenhum momento! É importante interagir e respeitar as necessidades do cachorro, usando métodos para ensiná-lo e também diminuir sua sensibilidade. Foi assim que desenhei meu método, porque senti a necessidade de ensinar os familiares a ter uma rotina de equilíbrio com os cães. Para que isso se inicie, é importante respeitar os limites do cachorro, seja ele adulto ou filhote. 

Por outro lado, também é importante mostrar ao cão o que é permitido e o que não é. Um exemplo prático, que funciona como treinamento para isso, é segurar alimentos na mão e fazer com que o cachorro aprenda a tocá-la suavemente com o focinho para receber um prêmio. Usar um desafio para recriar regras e estabelecer uma hierarquia ajuda o cão a saber a diferença entre o que é permitido e o que não é, pois auxilia o animal a entender quem é o provedor dos alimentos e que seus impulsos serão controlados quando ele apresentar mais tolerância.

3. Preciso ter meu momento e cantinho relax!

Os cães também precisam de um tempo para ficarem sossegados, no canto deles, por mais agitados que sejam. O animal deve ter a oportunidade de não ser incomodado. Existem ferramentas que proporcionam isso, como oferecer a ele um lugar privativo onde as crianças não consigam incomodá-lo, como a caixa de transporte. Até cães filhotes precisam desse tempo para dormir. São no mínimo 16 horas por dia, dependendo da raça, e um filhote pode dormir até 20 horas por dia. Então, assim começamos o raciocínio de que precisamos criar um ambiente para que ele relaxe. Uma caixa de transporte pode ser uma aliada excelente nessas horas, para que o cão a acesse quando precisar de calmaria. Esse local, que chamamos no adestramento de “place”, é marcado como um alvo para o cão alcançar e memorizar, e pode até mesmo ser um tapete, um tablado ou a própria cama do bicho. O tutor do pet pode treiná-lo gradativamente para que ele permaneça naquele local por até 45 minutos, em média, para ele conseguir, aos poucos, sentir calma. Sim, até a caixa transporte pode ser uma atividade para seu pet e uma ótima ferramenta de comunicação. Mas ela nunca deve ser utilizada como um castigo. Afinal, animais de estimação não precisam de um cantinho para pensar no que fizeram de errado e sim de mecanismos que os auxiliem a sentir calma.

Além desse treino, falar em um tom de voz baixo, não colocar o rosto muito próximo e deixar o cachorro descansar por algum tempo são cuidados básicos e importantes – e os adultos devem ensiná-los aos filhos para que pratiquem enquanto estiverem em contato com os pets.

4. Não me puxe enquanto dou aquela cheiradinha durante o passeio

Na rua, no parque ou no hall do condomínio, é importante que o animal fareje, principalmente na frente da casa dele ou na frente do prédio, e que perceba as informações que o território dele está transmitindo naquela hora. A atividade educativa consiste em o cachorro entender o contexto de um passeio migratório e ter suas necessidades instintivas preenchidas como reconhecimento e novas informações sobre seu território para, então, ter a migração, atividade essencial para a espécie.

A socialização adequada acontece com a exposição gradual e o aumento de confiança quando o condutor no passeio consegue promover uma neutralização do ambiente. É preciso permitir que ele fareje um pouco, por um tempo, e que, na sequência, retome o foco em seu condutor para migrar e, assim, ter menos distrações. 

Já ouvi muito sobre não deixar o cachorro farejar. E discordo. O cachorro tem que ter essa caprichada no farejar sim, mas depois que ele já caprichou, é preciso manter uma estrutura no passeio para que ele não reaja a diversas informações que a rua promove e faça uma atividade em conjunto com você. Isso favorece no animal a capacidade de fixar a atenção no local onde o condutor está se direcionando e evitar a reatividade, isto é, as atitudes indesejadas. O objetivo é que o cão se relacione de forma positiva com o que está na rua ou que aprenda a ignorar, pois cães equilibrados são capazes de ignorar. Essa é uma forma de trabalhar a ansiedade e o medo de aproximação de outros cães ou pessoas, com estímulos diferentes. 

Toda essa atividade da caminhada estruturada, do passeio utilizando a educação canina, aumenta a confiança do bichinho, neutraliza o ambiente ao redor e faz com que ele se sinta mais seguro e mais focado em acompanhar o condutor, o seu humano responsável.

5. Preciso mesmo usar roupinhas? Sério?

A roupinha é importante para nós, humanos. A gente acha isso bonito, divertido ou que o cachorro fica fofo na foto. Há ainda quem ache que ele parece um bebê, um personagem ou que está se divertindo com a vestimenta. Mas quem entende de comportamento animal sabe que, para o cachorro, a não ser que você more num estado ou numa região muito fria, não é necessário utilizar roupas. 

Os pelos dos animais têm uma capacidade termostática, ou seja, de regular a temperatura do animal. Isso acontece tanto nos cães muito peludos quanto nas raças e espécies de pelos curtos. Assim, a pelagem protege os animais tanto em temperaturas altas quanto nas baixas, deixando-os com a temperatura equilibrada. Usar roupinhas é um agrado ou uma alegria festiva dos humanos. Para os bichos, não é algo natural. 

6. Não brigue comigo quando subo no sofá. Foi você que me ensinou que podia

A partir do momento que você quebra a rotina que você propôs para o seu animalzinho, ele se sente inseguro. Ele ficará sem saber o que vai acontecer depois, esteja ciente disso! É comum que as pessoas deixem os filhotes subirem no sofá e, quando eles crescem, a família não quer mais permitir isso. Para termos um cão educado e equilibrado, é preciso utilizar a educação canina no dia a dia e estabelecer isso em uma rotina comprometida. É isso que promoverá o bem-estar do animal e o manterá equilibrado. Se não for assim, se não houver uma rotina estruturada (um dia pode, antes podia e hoje não pode mais), o animal  de estimação fica inseguro, e isso é maléfico para ele.

Sempre explico para os meus alunos que o ponto chave é quando a gente começa a gostar de educação canina e a inclui organicamente para se comunicar com o cachorro. Com isso, a gente começa a facilitar o seu bom comportamento, pois o animal sempre terá a segurança de saber o que acontecerá depois. Isso acaba o deixando confiante e vai minimizando problemas como ansiedade de separação ou até agressividade canina. 

7. Você me acha encrenqueiro? Então que tal começar a suprir minhas necessidades?

Uma das coisas mais desafiadoras para um treinador de cães é ver a dificuldade que um cão pode estar passando, mas também ver como alguns cães são dispensados, ignorados, isolados ou às vezes “ajudados” da forma errada. O cão “sorridente” e constantemente enérgico, que parece “feliz”, pode ser um cão incrivelmente estressado e ansioso, que não sabe como se acalmar. O cão “agressivo”, que ataca as pessoas que se aproximam, é também inseguro e já teve diversas experiências ruins quando os humanos se aproximaram muito. 

O cão “reativo”, que grita, dá um bote, morde a coleira e age “de forma inadequada” ao ver outros cães passeando, pode reagir assim por causa de socialização incorreta durante o período crítico de desenvolvimento, quando foi levado a parques caninos, creches, pet shops, clínicas e outros lugares e, apesar de todos os sinais da linguagem corporal, dizendo que ele precisava de espaço, isso não foi interpretado e respeitado. O cão “encrenqueiro”, que foge, revira o lixo, mastiga tudo, pula e “não escuta” está, na verdade, buscando desesperadamente a realização biológica e está frustrado por não ter qualquer saída reforçadora vinda de seu tutor, ou seja, de tirar a atenção do cachorro para algo que ele quer, e direcionar o foco dele para algo mais atraente.

Assim, pare de sentir pena ou sofrer pelo que possa ter acontecido com seu pet no passado. Os cães não se preocupam com o que aconteceu no passado e sim com o presente. O que você está fazendo agora para estruturar a vida desse animal para que ele se sinta confiante? Todos esses passos que citamos anteriormente são muito importantes!


Por:

LAÍS CAUNER
Adestradora, bióloga, consteladora familiar para pets e comportamentalista canina desde 2006, é especialista em casos de resgates e traumas caninos e responsável pela loja on-line “Eu & Meu Bicho”. Ministra cursos e webinários on-line e está lançando a segunda edição do seu MEC – Método de Equilíbrio Canino, um curso completo e on-line de como equilibrar seu cão, com possibilidade do praticante se tornar um adestrador. É tutora de cinco cães. Instagram @laiscauner 

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